Buscar en
Revista Paulista de Pediatria
Toda la web
Inicio Revista Paulista de Pediatria Relação entre aptidão cardiorrespiratória e adiposidade corporal em meninas
Información de la revista
Vol. 34. Núm. 4.
Páginas 469-475 (Diciembre 2016)
Compartir
Compartir
Descargar PDF
Más opciones de artículo
Visitas
1064
Vol. 34. Núm. 4.
Páginas 469-475 (Diciembre 2016)
Artigo original
DOI: 10.1016/j.rpped.2016.02.006
Open Access
Relação entre aptidão cardiorrespiratória e adiposidade corporal em meninas
Association between cardiorespiratory fitness and body fat in girls
Visitas
...
Giseli Minattoa,
Autor para correspondencia
gminatto@gmail.com

Autor para correspondência.
, Thiago Ferreira de Sousab, Wellington Roberto Gomes de Carvalhoc, Roberto Régis Ribeirod, Keila Donassolo Santosd, Edio Luiz Petroskia
a Centro de Desportos, Núcleo de Pesquisa em Cineantropometria e Desempenho Humano, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC/CDS/NuCiDH), Florianópolis, SC, Brasil
b Universidade Federal do Triãngulo Mineiro, Uberaba, MG, Brasil
c Laboratório de Estudos e Pesquisas Epidemiológicas em Atividade Física, Exercício e Esporte (LAPAES), Departamento de Educação Física, Universidade Federal do Maranhão, São Luís, MA, Brasil
d Faculdade Assis Gurgacz, Cascavel, PR, Brasil
Información del artículo
Resumen
Texto completo
Bibliografía
Descargar PDF
Estadísticas
Tablas (4)
Tabela 1. Comparações das perdas da aptidão cardiorrespiratória (ACR) segundo características da amostra
Tabela 2. Caracterização da amostra por valores médios e desvio padrão (DP) da exposição (gordura corporal) e do desfecho (VO2máx) de acordo com a faixa etária
Tabela 3. Distribuição da amostra geral e com baixa aptidão cardiorrespiratória segundo as variáveis do estudo
Tabela 4. Análise bruta e ajustada da associação entre a aptidão cardiorrespiratória (ACR) baixa e a adiposidade corporal em adolescentes do sexo feminino
Mostrar másMostrar menos
Resumo
Objetivo

Estimar a prevalência de aptidão cardiorrespiratória baixa e sua associação com excesso de adiposidade corporal, considerando a maturação sexual e o nível econômico, em adolescentes do sexo feminino.

Métodos

Estudo epidemiológico transversal com 1.223 adolescentes (10‐17 anos) da rede pública de ensino de Cascavel, PR, Brasil, em 2006. Analisou‐se a maturação sexual (pré‐púbere, púbere e pós‐púbere) autoavaliada, o nível econômico (NE) (alto e baixo) por questionário e a adiposidade corporal (normal e elevada) por dobras cutâneas do tríceps e subescapular. Aplicou‐se o teste de vaivém de 20 metros para estimar o consumo máximo de oxigênio. A aptidão cardiorrespiratória foi avaliada por critérios referenciados e considerada baixa quando não atingido o critério mínimo para a saúde segundo idade e sexo. Foram aplicados o teste de qui‐quadrado e a regressão logística, com nível de significância de 5%.

Resultados

A prevalência de aptidão cardiorrespiratória baixa foi de 51,3% que se associou a todas as variáveis do estudo (p<0,001). Na análise bruta, as adolescentes com adiposidade corporal elevada associaram‐se à aptidão cardiorrespiratória baixa, quando comparada com aquelas com adiposidade normal (RC=2,76; IC95% 2,17‐3,52). Após ajuste pela maturação sexual, essa associação se manteve e mostrou efeito 1,8 vez maior (IC95% 1,39‐2,46) e, após ajuste pelo NE, o efeito foi 1,9 vezes maior (IC95% 1,45‐2,61).

Conclusões

Aproximadamente metade dos avaliados apresentou níveis insatisfatórios de aptidão cardiorrespiratória para a saúde, o que se associou à adiposidade corporal elevada, independentemente da maturação sexual e NE. Medidas efetivas de saúde pública são necessárias, com especial atenção para grupos de maior risco.

Palavras‐chave:
Adolescente
Aptidão física
Composição corporal
Abstract
Objective

To estimate the prevalence of low cardiorespiratory fitness and its association with excess body fat, considering the sexual maturation and economic level in female adolescents.

Methods

Cross‐sectional, epidemiological study of 1,223 adolescents (10‐17 years) from the public school system of Cascavel, PR, Brazil, in 2006. We analyzed the self‐assessed sexual maturation level (prepubertal, pubertal and post‐pubertal), the Economic Level (EL) (high and low) through a questionnaire and body fat (normal and high) through triceps and subscapular skinfolds. The 20‐meter back‐and‐forth test was applied to estimate maximum oxygen consumption. Cardiorespiratory fitness was assessed according to reference criteria and considered low when the minimum health criterion for age and sex was not met. Chi‐square test and logistic regression were applied, with a significance level of 5%.

Results

The prevalence of low cardiorespiratory fitness was 51.3%, being associated with all study variables (p<0.001). At the crude analysis, adolescents with high body fat were associated with low cardiorespiratory fitness, when compared to those with normal body fat (OR=2.76; 95%CI: 2.17–3.52). After adjustment by sexual maturation, this association remained valid and showed an effect that was 1.8‐fold higher (95%CI: 1.39–2.46) and after adjusting by EL, the effect was 1.9‐fold higher (95%CI: 1.45–2.61).

Conclusions

Approximately half of the assessed girls showed unsatisfactory levels of cardiorespiratory fitness for health, which was associated with high body fat, regardless of sexual maturation level and EL. Effective public health measures are needed, with particular attention to high‐risk groups.

Keywords:
Adolescent
Physical fitness
Body composition
Texto completo
Introdução

A aptidão cardiorrespiratória é considerada um importante marcador de saúde desde a infância e adolescência.1 É definida como a capacidade dos sistemas circulatório e respiratório de fornecer oxigênio aos músculos durante o exercício físico de intensidade moderada a alta e envolve grandes grupos musculares por longos períodos de tempo.2

Estudos indicam que a aptidão cardiorrespiratória em crianças e adolescentes tem diminuído nas últimas décadas em 27 países (redução de 0,46%)3 e no Brasil (redução de 0,51%).4 A proporção de adolescentes que não atingem níveis aceitáveis para a saúde desse componente da aptidão física varia de 37,8%5 em Florianópolis a 60%6 no Paraná.

O baixo nível da aptidão cardiorrespiratória está associado ao aumento dos fatores de risco cardiovascular e à síndrome metabólica em jovens,7 bem como ao acréscimo do risco cardiovascular na vida adulta.8 Uma metanálise evidenciou que o risco total de morte por todas as causas ou por doença cardiovascular foi duas vezes maior em indivíduos com baixa aptidão cardiorrespiratória, comparados com aqueles com elevada aptidão.8 De acordo com Azambuja et al.,9 em 2004 o custo anual aos cofres públicos para o tratamento de doenças cardiovasculares foi de R$ 30,8 bilhões (36,4% para a saúde; 8,4% para o seguro social e reembolso por empregadores e 55,2% como resultado da perda de produtividade).

Outro fator agravante dos baixos níveis de aptidão é o excesso de adiposidade corporal ainda em idades precoces. Adolescentes com excesso de gordura corporal mostram menor aptidão cardiorrespiratória,6,10,11 principalmente as meninas.10 O ganho acentuado de adiposidade corporal na adolescência está relacionado com o período da puberdade, fase na qual as meninas, por ação do hormônio estrogênio, tendem a acumular maior quantidade de gordura corporal.12 Contudo, existe um estudo que relata uma associação negativa entre aptidão cardiorrespiratória e maturação sexual, controlou‐se o percentual de gordura corporal em moças,10 o que pode indicar mudanças na aptidão cardiorrespiratória durante o desenvolvimento físico maturacional.

Embora a relação entre a aptidão cardiorrespiratória e a adiposidade corporal tenha sido explorada em adolescentes,6,13 há uma lacuna na literatura acerca da relação entre essas variáveis considerando o nível econômico. Em adolescentes de nível econômico alto, melhor aptidão cardiorrespiratória foi encontrada nos adolescentes com menor acúmulo de tecido adiposo.6 Quando analisados somente os meninos, a relação entre a adiposidade corporal e outros componentes da aptidão física também é inversa, mas parece diferir entre os estratos sociais.13 Outros autores, em estudo que envolveu ambos os sexos, reportaram não haver associação entre a aptidão cardiorrespiratória e o nível econômico.5 Esses resultados conflitantes reforçam a necessidade de novos estudos a fim de elucidar a relação entre aptidão cardiorrespiratória e adiposidade corporal nos diferentes estratos econômicos, uma vez que as atitudes preventivas poderiam considerar tais aspectos. Portanto, este estudo teve como objetivo estimar a prevalência de aptidão cardiorrespiratória baixa e sua associação com o excesso de adiposidade corporal, considerou‐se a maturação sexual e o nível econômico, em adolescentes (10‐17 anos) do sexo feminino de Cascavel, PR, Brasil.

Método

Estudo epidemiológico de base escolar e de corte transversal, feito em 2006, na cidade de Cascavel, Oeste Paranaense, Região Sul do Brasil. A população estimada do município, em 2006, era de 245.369 habitantes, a maioria (93,2%) residente na área urbana.14 O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do município é 0,810 (elevado desenvolvimento humano).15

O presente artigo está inserido em um estudo epidemiológico maior, de corte transversal, denominado “Antropometria, composição corporal, desempenho motor e maturação sexual de escolares de diferentes níveis socioeconômicos do município de Cascavel, Paraná”. A população alvo do estudo maior foram as escolares de 8‐17 anos, do sexo feminino, residentes na área urbana.

Segundo o relatório do Núcleo Regional de Educação e Secretaria Municipal de Educação de Cascavel, em 2006 o município apresentava 39.830 escolares matriculados nos ensinos fundamental e médio. Tendo em vista que a Secretaria Municipal de Educação não fornece o número de escolares por sexo, ponderou‐se uma distribuição de 50%, o que totalizou uma população de 19.915 escolares do sexo feminino. O cálculo da amostra seguiu os procedimentos sugeridos por Barbetta,16 com prevalência esperada de 50% para o desfecho, erro amostral de 2 pontos percentuais e intervalo de confiança de 95%; resultou em uma amostra de 2.221 meninas.

O processo de amostragem foi por conglomerado em três estágios, o primeiro o polo educacional, o segundo a escola e o terceiro as turmas, respeitou‐se a proporcionalidade. Três polos educacionais foram formados de acordo com a distribuição dos escolares nas diferentes regiões geográficas do município, a fim de assegurar melhor representatividade, de acordo com a divisão geográfica proposta pelo Núcleo Regional de Educação de Cascavel, PR. Na distribuição dos escolares obteve‐se uma proporção de 35,8% no polo I; 33,1% no Polo II e 31,2% no Polo III. No primeiro estágio, foi feito um sorteio de quatro escolas de cada polo, duas municipais e duas estaduais. No segundo estágio sortearam‐se quais escolas participariam do estudo, teve como base uma lista fornecida pelas próprias instituições com a idade dos estudantes. No terceiro estágio, procedeu‐se à seleção aleatória simples das turmas, considerou‐se a proporcionalidade em relação à população alvo.

Para fins deste estudo, o cálculo do poder estatístico da amostra foi feito a posteriori. Para testar a associação entre adiposidade corporal (exposição) e aptidão cardiorrespiratória (desfecho), consideraram‐se uma prevalência de exposição de 38%, uma prevalência do desfecho nos não expostos de 42% e um nível de confiança de 95%, com a amostra analisada (n=1.223). O estudo teve poder de 100% para encontrar como significativa uma razão de chances de 1,6 ou superior.

Para o presente estudo definiram‐se como elegíveis somente as adolescentes (10‐17 anos) matriculadas na rede pública municipal ou estadual de ensino e que se encontravam na sala de aula no dia da coleta de dados. Foram excluídas as escolares impossibilitadas de fazer o teste de aptidão cardiorrespiratória e aquelas com idade<10 anos, uma vez que o referido teste físico não é indicado para essa faixa etária.17

A equipe de avaliadores foi composta por três professores e 12 alunos do curso de Educação Física. Fez‐se um treinamento prévio para padronizar a avaliação antropométrica e um estudo piloto a fim de testar os instrumentos de medida aplicados no estudo. O erro técnico de medida (ETM) intra‐ e interavaliador foi calculado previamente, com uma amostra de 19 escolares não participantes do estudo. O limite do ETM intra‐avaliador foi de 3% para dobras cutâneas e de 1% para outras medidas. Para o ETM interavaliador, considerou‐se um limite de erro de 7% para dobras cutâneas e de 1% para outras medidas.

A coleta de dados foi feita em agosto de 2006 nas dependências das escolas, durante o período de aula. As medidas antropométricas de massa corporal, estatura e dobras cutâneas para caracterização da amostra, determinação do estado nutricional e do percentual de gordura corporal foram tiradas em uma sala separada e previamente preparada. Em seguida, em outra sala reservada, foi feita a autoavaliação da maturação sexual.

Informações demográficas de sexo, idade e cor da pele foram autorreferidas em questionário. Especificamente, a cor da pele foi obtida com base na autodeclaração, de acordo com a determinação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).18

A aptidão cardiorrespiratória foi obtida por meio do teste de vaivém de 20 metros proposto por Leger et al.19 e validado para amostras brasileiras.20 Para determinar se a aptidão cardiorrespiratória era baixa, foram adotados os critérios referenciados pelo Fitnessgram.17

A massa corporal foi mensurada por meio de uma balança de bioimpedância (Tanita®) (modelo TBF 305), com graduação em 0,1 quilograma. A estatura foi obtida com estadiômetro (Seca®) e resolução de 0,1 centímetro. Ambas as medidas foram obtidas por meio de procedimentos padronizados.21

O estágio de maturação sexual foi obtido pela autoavaliação do desenvolvimento das mamas,22 a qual é indicada para o diagnóstico da maturação sexual em crianças e adolescentes.23 As escolares foram orientadas individualmente por uma avaliadora quanto aos objetivos da avaliação e esclarecidas sobre os procedimentos de autoavaliação e anotação do estádio em que elas se encontravam em formulário. Solicitou‐se às escolares que observassem com atenção cada uma das fotografias e marcassem no formulário a que mais se parecia com a sua mama naquele momento. As voluntárias foram distribuídas em três grupos: pré‐púbere (estágio I), púbere (estágios II, III e IV) e pós‐púbere (estágio V).12

A classe social foi identificada por meio do questionário da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep),24 que estima o poder de compra das famílias a partir do acúmulo de bens materiais, condições de moradia, número de empregados domésticos e nível de escolaridade do chefe da família. O questionário classifica, por ordem decrescente, em cinco classes: A1, A2, B1, B2, C, D e. Para o presente estudo, os voluntários foram classificados em alto (A+B) e baixo nível econômico (C+D+E), devido à baixa frequência nas categorias.

O percentual de gordura corporal (%GC) foi estimado por meio das dobras cutâneas. Para tanto, a espessura das dobras tricipital (TR) e subescapular (SE) foi mensurada no hemicorpo direito e em duplicata por meio de um compasso (Cescorf® Equipamentos Antropométricos Ltda, Porto Alegre, Brasil). O valor médio de cada dobra foi calculado e o somatório de ambas empregado nas equações de Slaughter et al:25

%GC=0,546 (TR+SE)+9,7 (soma das dobras TR e SE>35mm);

%GC=1,33 (TR+SE)‐0,013(TR+SE)2–2,5 (soma das dobras TR e SE<35mm).

A partir do valor obtido nas equações, a amostra foi classificada em com excesso e sem excesso de adiposidade, segundo os pontos de corte propostos pelo Fitnessgram.26

Para caracterizar a amostra usou‐se a estatística descritiva. A normalidade do consumo máximo de oxigênio e do percentual de gordura foi constatada pelo histograma. A diferença dos valores médios dessas variáveis entre as faixas etárias foi testada pela análise de variância (Anova one‐way), seguida do post‐hoc de Bonferroni. Foi referida como prevalência a proporção de escolares que apresentaram aptidão cardiorrespiratória baixa (desfecho) em relação ao número de escolares investigados, embora o desfecho de interesse não se trate de uma doença. A associação da aptidão cardiorrespiratória baixa com as variáveis do estudo foi testada pelo teste qui‐quadrado.

Previamente foi também testada à interação do nível econômico na associação entre a aptidão cardiorrespiratória e a adiposidade corporal (p=0,149). Por essa razão, fez‐se a regressão logística binária para testar a associação entre o desfecho e o excesso de adiposidade corporal, controlada pela maturação sexual e pelo nível econômico. As variáveis foram inseridas no modelo uma a uma e mantidas para ajuste com a variável seguinte quando apresentavam p<0,20. Foram estimadas as razões de chance e os respectivos intervalos de confiança. O nível de significância adotado em todas as análises foi de 5% e o programa usado foi o software Stata (StataCorp LP, College Station, USA), versão 12.0.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), parecer n° 131/2006. Foram seguidas as orientações contidas na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde e foi enviado um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido aos participantes da pesquisa para informa‐los sobre os objetivos.

Resultados

Das 1.910 escolares avaliadas (86% da amostra estimada), foram excluídas para o presente estudo sete adolescentes por não haver informação da idade, 269 por terem idade<10 (n=268) ou>17 anos (n=1). Das elegíveis (n=1.634), foi necessário excluir ainda 417 por não terem feito o teste de aptidão cardiorrespiratória. Dessa forma, participaram 1.223 adolescentes da referida faixa etária (75% das elegíveis). A tabela 1 indica que as perdas foram maiores entre as adolescentes mais velhas (16‐17 anos) e entre as estudantes do período matutino, porém não houve diferenças quanto à cor da pele.

Tabela 1.

Comparações das perdas da aptidão cardiorrespiratória (ACR) segundo características da amostra

Variáveis  Com ACR (n=1.223)  Sem ACR (n=417)
  p‐valor 
Faixa etária (anos)      0,003 
10‐12  74,0  26,0   
13‐15  78,0  22,0   
16‐17  66,5  33,5   
Turno de estudo      <0,001 
Manhã  67,7  32,3   
Tarde  83,7  16,3   
Cor da pele      0,462 
Branca  74,1  25,9   
Outra cor  76,0  24,0   

Qui‐quadrado.

A média de idade das adolescentes foi 13±2 anos. O percentual de gordura corporal mostrou aumento significativo com a idade das adolescentes, enquanto para a VO2máx essa associação foi inversa (tabela 2).

Tabela 2.

Caracterização da amostra por valores médios e desvio padrão (DP) da exposição (gordura corporal) e do desfecho (VO2máx) de acordo com a faixa etária

Variáveis  Gordura corporal (%)VO2máx (mL.kg‐1.min‐1)
  Média  DP  Média  DP 
Geral  1.221  26,5  6,9  1.223  39,0  4,7 
Faixa etária (anos)
10‐12  559  24,2  6,7  559  42,4  2,9 
13‐15  494  27,9  6,4  496  37,2  3,5 
16‐17  168  29,8  6,2  168  32,8  3,2 
p‐valora  <0,001  <0,001         

VO2máx, consumo máximo de oxigênio.

a

Teste de Anova de tendência.

A prevalência de aptidão cardiorrespiratória baixa foi de 51,3% (IC95% 48,5‐54,1). Na tabela 3, as adolescentes com adiposidade corporal elevada, no estágio pós‐púbere de maturação sexual e de nível econômico alto, apresentaram maior prevalência do desfecho. Na distribuição da amostra, foi encontrada maior frequência de adolescentes no estágio púbere, com adiposidade corporal normal, pertencentes ao nível econômico baixo.

Tabela 3.

Distribuição da amostra geral e com baixa aptidão cardiorrespiratória segundo as variáveis do estudo

Variáveis  Total (n=1.223)ACR baixa
  p‐valor 
Maturação sexual        <0,001 
Pré‐púbere  50  4,1  8,0   
Púbere  1,009  82,8  47,4   
Pós‐púbere  160  13,1  88,0   
Nível econômico        <0,001 
Alto  385  32,6  59,0   
Baixo  796  67,4  48,0   
Adiposidade corporal        <0,001 
Normal  762  62,4  42,0   
Elevada  549  37,6  66,7   

ACR, aptidão cardiorrespiratória baixa; Teste qui‐quadrado.

Na análise bruta (tabela 4), as adolescentes com adiposidade corporal elevada apresentaram 2,76 vezes mais chance de terem aptidão cardiorrespiratória baixa, comparadas com aquelas com adiposidade normal. A associação se manteve após ajuste pela maturação sexual e pelo nível econômico. A chance de adolescentes do sexo feminino com excesso de adiposidade corporal ter níveis inadequados de aptidão cardiorrespiratória para a saúde foi 85% maior quando controlada pela maturação sexual e 94% maior quando o nível econômico foi inserido no modelo.

Tabela 4.

Análise bruta e ajustada da associação entre a aptidão cardiorrespiratória (ACR) baixa e a adiposidade corporal em adolescentes do sexo feminino

Modelos  ACR baixa
  OR  IC95%  p‐valora 
Adiposidade elevada  2,76  2,17‐3,52  <0,001 
Adiposidade elevada ajustada pela MS  1,85  1,39‐2,46  <0,001 
Adiposidade elevada ajustada pela MS e NE  1,94  1,45‐2,61  <0,001 

OR, odds ratio; IC95%, intervalo de confiança a 95%; MS, maturação sexual; NE, nível econômico.

a

Valor p do teste de Wald.

Discussão

Os principais achados deste estudo revelaram que aproximadamente metade das adolescentes avaliadas apresentou baixos níveis de aptidão cardiorrespiratória para a saúde. As maiores prevalências foram encontradas entre as adolescentes com adiposidade corporal elevada, no estágio de maturação pós‐púbere, pertencentes à classe econômica mais abastada. Adolescentes com adiposidade corporal elevada estiveram mais expostas à aptidão cardiorrespiratória baixa, independentemente da maturação sexual e do nível econômico.

A prevalência de aptidão cardiorrespiratória baixa encontrada no presente estudo foi superior àquela encontrada em adolescentes femininas de 10‐15 anos de Florianópolis, SC (37,8%); em amostra representativa de base escolar, consideraram‐se escolas públicas e particulares.5 Foi inferior à proporção encontrada em um estudo longitudinal que envolveu adolescentes de alto nível econômico de Londrina, PR, de uma escola central do município (60%).6 Em estudo longitudinal, de base escolar, com adolescentes (10‐11 anos) feito em Ilhabela, SP, entre 1978‐2010, constatou‐se declínio anual da aptidão cardiorrespiratória de 0,51% nas últimas três décadas.4 Em uma análise de pesquisas com crianças e adolescentes (6‐19 anos) em 27 países, essa redução anual foi de 0,46%.3

Considerando‐se apenas o sexo feminino (6‐19 anos), a diminuição da aptidão cardiorrespiratória em estudos de 11 países analisados foi de 0,41% por ano.27 A proporção de adolescentes do presente estudo com aptidão cardiorrespiratória baixa pode ser um reflexo da redução dos níveis de aptidão cardiorrespiratória observada em nível mundial. Esses dados são preocupantes tendo em vista a exposição desses jovens aos fatores de risco cardiovasculares durante a adolescência7 e vida adulta.8

A proporção de adolescentes com aptidão cardiorrespiratória baixa diferiu de acordo com os estágios de maturação sexual. Às adolescentes no estágio pós‐púbere foi conferida maior chance de apresentarem baixos níveis de aptidão. Esses achados corroboram outros estudos de base escolar feitos com amostra representativa de meninas no Brasil28 e da Europa.10 Em meninas sergipanas (9‐14 anos),28 ao verificar a influência da maturação na aptidão cardiorrespiratória, observou‐se um efeito significativo (p < 0,0001) e de média dimensão (Eta2=0,069; poder=1) sobre o VO2máx. Em moças (13‐18,5 anos) espanholas e suecas,10 a aptidão cardiorrespiratória apresentou associação negativa com a maturação sexual, mesmo após o controle para o percentual de gordura corporal. Isso sugere que a adiposidade corporal é um fator modificador da aptidão cardiorrespiratória. Esses achados revelam que a maturação sexual é uma importante variável a ser considerada em investigações da aptidão cardiorrespiratória de adolescentes, principalmente pelo favorecimento ao acréscimo de gordura corporal que ocorre nessa fase da adolescência.

Outro achado deste estudo indicou que as adolescentes pertencentes aos estratos econômicos de maior classe social apresentaram maior prevalência de baixos níveis de aptidão cardiorrespiratória em relação aos seus pares menos favorecidos. Em adolescentes (10‐15 anos) de Florianópolis, SC, a associação foi encontrada no sentido inverso. A aptidão cardiorrespiratória baixa foi mais prevalente naqueles pertencentes aos estratos econômicos menos favorecidos, não diferiu entre os sexos.5 Destaca‐se que no estudo feito em Florianópolis5 foi incluída uma amostra de adolescentes de escolas públicas e particulares, o que pode justificar a diferença entre os achados. A relação inversa entre a aptidão cardiorrespiratória e o nível econômico também foi reportada por outros pesquisadores.29 Esses resultados divergentes da relação entre o nível econômico e os baixos níveis de aptidão cardiorrespiratória requerem estudos mais comparáveis a fim de melhor elucidar essa associação e contribuir para as discussões acerca da interferência das características sociais nas variáveis biológicas.

Maior exposição a baixos níveis de aptidão cardiorrespiratória também ocorreu em adolescentes com adiposidade corporal elevada, mesmo após ajuste pela maturação sexual e nível econômico. Esses resultados corroboram os estudos desenvolvidos no Brasil, nos quais adolescentes com maiores índices de adiposidade apresentaram menores valores de consumo máximo de oxigênio.6,30 Internacionalmente, essa relação inversa entre a aptidão cardiorrespiratória e a gordura corporal também é confirmada após ajuste pela maturação sexual.11 O declínio da aptidão cardiorrespiratória durante a adolescência é geralmente atribuído ao acúmulo da adiposidade relacionada à maturação sexual; entretanto, se, mesmo após controle pela gordura corporal, o declínio permanecer, a causa pode ser atribuída a outros fatores que não biológicos, como o nível de atividade física.

Ressalta‐se que não foi controlada a motivação das escolares no teste físico, o que impossibilita saber se elas se esforçaram ao máximo. Além disso, as perdas diferenciais observadas podem ter gerado algum viés, necessitam de cautela na interpretação desses resultados. Um dos motivos principais dessas perdas foi a impossibilidade de aplicação do teste de aptidão cardiorrespiratória em virtude do mau tempo, uma vez que, na maioria das escolas, as quadras poliesportivas não eram cobertas. Outra importante limitação refere‐se ao fato de o estudo ter sido feito há 10 anos, uma vez que o panorama observado pode ser sofrido mudanças, o que requer atenção na leitura dos resultados. Este estudo é delimitado à população de meninas matriculadas em escolas públicas e residentes na área urbana, não pode se estender às demais escolares com<10 e>17 anos, de escolas particulares, com área de domicílio rural e de IDH diferente.

Apesar das limitações inerentes a todo o estudo, alguns pontos fortes merecem ser ressaltados. Primeiro, o controle de fatores de confusão (maturação sexual e nível econômico) possibilitou melhor evidenciar a relação entre a aptidão cardiorrespiratória e a adiposidade corporal. Embora novas investigações sejam necessárias para elucidar melhor a relação entre a aptidão cardiorrespiratória baixa e o nível econômico, o presente estudo avança na busca por evidências acerca dos fatores que interferem na relação entre a aptidão cardiorrespiratória e a adiposidade corporal. Segundo, destaca‐se o uso do teste de campo mais indicado para a mensuração da aptidão cardiorrespiratória.1 Por fim, os resultados observados, em uma amostra representativa de escolares, são relevantes para a preparação de medidas efetivas de promoção da saúde voltadas para a redução da adiposidade corporal e melhoria nos níveis de aptidão cardiorrespiratória em adolescentes do sexo feminino.

Em conclusão, aproximadamente metade das adolescentes avaliadas apresentou níveis insatisfatórios de aptidão cardiorrespiratória para a saúde, a aptidão insatisfatória está associada ao excesso de adiposidade corporal, independentemente do nível econômico e da maturação sexual. Novos estudos poderiam ser conduzidos com a finalidade de intervir na elevada prevalência de aptidão cardiorrespiratória baixa encontrada, com vistas ao excesso de adiposidade corporal, identificada como uma variável associada independentemente de características econômicas e biológicas. Tais estratégias poderiam ser aplicadas no âmbito da saúde pública para alcançar os adolescentes na sua totalidade e atentar para os grupos de maior risco.

Financiamento

O estudo não recebeu financiamento.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Agradecimentos

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) pela bolsa de doutorado concedida a GM, processo n° 006674/2015‐01.

Referências
[1]
J.R. Ruiz, J. Castro-Piñero, V. España-Romero, E.G. Artero, F.B. Ortega, M.M. Cuenca, et al.
Field‐based fitness assessment in young people: the ALPHA health‐related fitness test battery for children and adolescents.
Br J Sports Med., 45 (2011), pp. 518-524
[2]
American College of Sports Medicine.
Manual do ACSM para teste de esforço e prescrição do exercício.
7rh ed., Guanabara Koogan, (2007),
[3]
G.R. Tomkinson, T.S. Olds.
Secular changes in pediatric aerobic fitness test performance: the global picture.
Med Sport Sci., 50 (2007), pp. 46-66
[4]
G.L. Ferrari, M.M. Bracco, V.K. Matsudo, M. Fisberg.
Aptidão cardiorrespiratória e estado nutricional de escolares: evolução em 30 anos.
J Pediatr (Rio J), 89 (2013), pp. 366-373
[5]
D.G. Vasques, K.S. Silva, A.S. Lopes.
Aptidão cardiorrespiratória de adolescentes de Florianópolis, SC.
Rev Bras Med Esporte, 13 (2007), pp. 376-380
[6]
E.R. Ronque, E.S. Cyrino, A.L. Mortatti, A. Moreira, A. Avelar, F.O. Carvalho, et al.
Relação entre aptidão cardiorrespiratória e indicadores de adiposidade corporal em adolescentes.
Rev Paul Pediatr., 28 (2010), pp. 296-302
[7]
C. Moreira, R. Santos, J. Farias, S. Vale, P.C. Santos, L. Soares-Miranda, et al.
Metabolic risk factors, physical activity and physical fitness in azorean adolescents: a cross‐sectional study.
BMC Public Health., 11 (2011), pp. 214
[8]
S. Kodama, K. Saito, S. Tanaka, M. Maki, Y. Yachi, M. Asumi, et al.
Cardiorespiratory fitness as a quantitative predictor of all‐cause mortality and cardiovascular events in healthy men and women: a meta‐analysis.
JAMA., 301 (2009), pp. 2024-2035
[9]
M.I. Azambuja, M. Foppa, M.F. Maranhão, A.C. Achutti.
Impacto econômico dos casos de doença cardiovascular grave no Brasil: uma estimativa baseada em dados secundários.
Arq Bras Cardiol., 91 (2008), pp. 163-171
[10]
F.B. Ortega, J.R. Ruiz, J.L. Mesa, A. Gutiérrez, M. Sjöström.
Cardiovascular fitness in adolescents: the influence of sexual maturation status‐the AVENA and EYHS studies.
Am J Hum Biol., 19 (2007), pp. 801-808
[11]
J. Mota, S. Guerra, C. Leandro, A. Pinto, J.C. Ribeiro, J.A. Duarte.
Association of maturation, sex, and body fat in cardiorespiratory fitness.
Am J Hum Biol., 14 (2002), pp. 707-712
[12]
R.M. Malina, C. Bouchard, O. Bar-Or.
Growth, maturation and physical activity.
2nd ed., Human Kinetics Books, (2004),
[13]
G. Minatto, T.B. Nascimento, R.R. Ribeiro, K.D. Santos, E.L. Petroski.
A associação entre a adiposidade corporal e a aptidão musculoesquelética em meninos é mediada pelo nível econômico?.
Rev Bras Cineantropom Desempenho Hum., 16 (2014), pp. 116-128
[14]
Brasil.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Censo Populacional, (2000),
[cited 2011 Aug 10]. Available from: http://www.ibge.gov.br/home/
[15]
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento [homepage on the internet]. Ranking do Índice de Desenvolvimento Municipal dos municípios do Brasil [cited 10 de agosto de 2011]. Disponível em: http://www.pnud.org.br/atlas/tabelas/index.php.
[16]
P.A. Barbetta.
Estatística aplicada às ciências sociais.
UFSC, (2003),
[17]
G.J. Welk, K.R. Laurson, J.C. Eisenmann, K.J. Cureton.
Development of youth aerobic‐capacity standards using receiver operating characteristic curves.
Am J Prev Med., 41 (2011), pp. S111-S116
[18]
Brasil.
‐ Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. Mostre sua raça, declare sua cor.
Ministério da Educação, (2005),
[19]
L.A. Léger, D. Mercier, C. Gadoury, J. Lambert.
The multistage 20 metre shuttle run test for aerobic fitness.
J Sports Sci., 6 (1988), pp. 93-101
[20]
M.F. Duarte, C.R. Duarte.
Validade do teste aeróbico de corrida de vai‐e‐vem de 20 metros.
R Bras Ci e Mov., 9 (2001), pp. 07-14
[21]
W.D. Ross, M.J. Marfell-Jones.
Kinanthropometry.
Physiological testing of the high performance athlete., pp. 223-250
[22]
W.A. Marshall, J.M. Tanner.
Variations in pattern of pubertal changes in girls.
Arch Dis Child., 44 (1969), pp. 291-303
[23]
S.M. Matsudo, V.K. Matsudo.
Self‐assessment and physician assessment of sexual maturation in Brazilian boys and girls: Concordance and reproducibility.
Am J Hum Biol., 6 (1994), pp. 451-455
[24]
Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa.
Critérios de Classificação Econômica Brasil.
(2010),
[25]
M.H. Slaughter, T.G. Lohman, R.A. Boileau, C.A. Horswill, R.J. Stillman, M.D. Van Loan, et al.
Skinfold equations for estimation of body fatness in children and youth.
Hum Biol., 60 (1988), pp. 709-723
[26]
Standards for Healthy Fitness Zone Revision 8.6 and 9.x. Dallas, Texas: The Cooper Institute; 2010. [cited 2011 Nov 20]. Available from: http://staffweb.esc12.net/∼mbooth/resources_general/Coordinated_Fitness%20Gram/NewStandards_11/Updates_FitnessGram.pdf.
[27]
G.R. Tomkinson, L.A. Leger, T.S. Olds, G. Cazorla.
Secular trends in the performance of children and adolescents (1980‐2000): an analysis of 55 studies of the 20m shuttle run test in 11 countries.
Sports Med., 33 (2003), pp. 285-300
[28]
N.M. Soares, R.J. Silva, E.V. Melo, A.C. Oliveira.
Influence of sexual maturation on cardiorespiratory fitness in school children.
Rev Bras Cineantropom Desempenho Hum., 16 (2014), pp. 223-232
[29]
D. Jimenez-Pavon, F.P. Ortega, J.R. Ruiz, V. Espana Romero, E. Garcia Artero, D. Moliner Urdiales, et al.
Influência da maturação sexual na aptidão cardiorrespiratória em escolares.
Nutr Hosp., 25 (2010), pp. 311-316
[30]
T.L. Capel, M. Vaisberg, M.P. Araújo, R.F. Paiva, J.M. Santos, Z.I. Bella.
Influência do índice de massa corpórea, porcentagem de gordura corporal e idade da menarca sobre a capacidade aeróbia (VO2 máx) de alunas do ensino fundamental.
Rev Bras Ginecol Obstet., 36 (2014), pp. 84-89
Copyright © 2016. Sociedade de Pediatria de São Paulo
Opciones de artículo
Herramientas