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Inicio Revista Portuguesa de Saúde Pública Qualidade de vida em pessoas idosas no momento de internamento hospitalar
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Vol. 33. Issue 1.
Pages 2-11 (January - June 2015)
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Vol. 33. Issue 1.
Pages 2-11 (January - June 2015)
Artigo original
DOI: 10.1016/j.rpsp.2014.06.004
Open Access
Qualidade de vida em pessoas idosas no momento de internamento hospitalar
Quality of life in older persons at the hospitalization admission
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Gorete Santosa,
Corresponding author
gorete_@hotmail.com

Autor para correspondência.
, Liliana Sousab
a Hospital Infante D. Pedro, EPE, Mestre em Gerontologia, Estudante do 2° Ano do Programa Doutoral em Geriatria e Gerontologia
b Secção Autónoma de Ciências da Saúde da Universidade de Aveiro, Departamento de Ciências da Saúde, Universidade de Aveiro, Aveiro, Portugal
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Tabela 1. Caracterização da amostra: dados sociodemográficos
Tabela 2. Caracterização da amostra: diagnóstico e antecedentes clínicos
Tabela 3. Contribuição dos itens para cada fator
Tabela 4. Grupos de qualidade de vida
Tabela 5. Clusters versus estado civil e com quem vive
Tabela 6. Cluster versus rendimento, escolaridade e idade: comparação de médias
Tabela 7. Clusters versus outros domínios do EasyCare
Tabela 8. Clusters versus EasyCare: comparação de médias
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Resumo

O internamento hospitalar é um momento de elevada ansiedade para pessoas idosas, pois associa‐se à deterioração da saúde e qualidade de vida. Este estudo analisa a qualidade de vida de pessoas idosas no momento da admissão num internamento hospitalar, considerando variáveis de natureza sociodemográficas, patologia e tempo de internamento. A amostra compreende 250 participantes (≥65 anos), 50,4% do sexo feminino. Administrou‐se por entrevista o EasyCare (sistema de avaliação de pessoas idosas). Os principais resultados indicam: 27,6% dos participantes são dependentes nas AVD e AIVD; 38,5% são dependentes nas AVID e pouco dependentes nas AVD; 39,6% são independentes. As pessoas idosas mais dependentes tendem a ter mais idade, menores rendimentos, menor escolaridade, ser viúvos, viverem em instituição, sentirem‐se mais deprimidos e estarem menos satisfeitos com a sua residência; os independentes são mais novos, tendem a estar mais satisfeitos com a sua habitação e a gerir de forma autónoma as suas finanças, apresentam maior escolaridade, são casados ou divorciados; e os dependentes moderados apresentam valores intermédios. Os resultados sugerem que a qualidade de vida é influenciada por estilos de vida, indicando que durante o internamento hospitalar estes fatores sejam valorizados.

Palavras‐chave:
Qualidade de vida
Doença
Envelhecimento
Abstract

Hospitalization is an event of high anxiety mainly for older persons, due to its association with health status deterioration and decrease of the quality of life. This study examines older person's quality of life at admission, considering the influence of socio‐demographic, pathology and hospitalization duration variables. The sample comprises 250 participants (≥65 years old), 50.4% females. The Elderly Assessment System (EasyCare) was administered. Main findings show that: 27.6% of the participants are dependent in ADL and IDLA; 38.5% are dependent in IADL and independent in ADL; 39.6% are independent. The dependent tend to be older, with lower income, having lower education levels, being widowed, institutionalized, feeling more depressed and less satisfied with their residence; the independent tend to be less older, more satisfied with their housing conditions, able to manage their finances, with higher educational levels, married or divorced; and dependent moderates have intermediate values. Results suggest that the quality of life is influenced by life styles, what should be addressed during the hospitalization.

Keywords:
Quality of life
Disease
Aging
Full Text
Introdução

O envelhecimento populacional torna mais relevantes tópicos como a qualidade de vida (QV) em pessoas idosas. O interesse neste tema tem‐se acentuado nas últimas décadas, com grande ênfase na dependência/autonomia1. A QV é um constructo multidimensional, influenciado por fatores como estado de saúde, rede social e familiar, situação económica e atividades de lazer2. A QV é subjetiva, pois trata‐se da perceção individual. As diferenças de QV entre pessoas idosas têm sido explicadas por estilos de vida, condições sociodemográficas e características pessoais3.

Em Portugal não foram encontrados estudos sobre hospitalização e QV. Contudo, a pesquisa internacional mostra que, principalmente nas pessoas idosas, na sequência de um internamento hospitalar tende a ocorrer diminuição da capacidade funcional e da perceção de QV, associada à maior prevalência de comorbilidades4,5. É pertinente conhecer a QV das pessoas idosas no momento do internamento hospitalar para melhor planear os serviços e recursos durante o internamento, respondendo com mais eficácia às suas necessidades e características. Este estudo analisa a QV de pessoas idosas no momento de internamento hospitalar, considerando a influência de variáveis sociodemográficas. Os resultados têm implicações para o desenvolvimento de medidas que visem melhorar os cuidados aos clientes idosos durante o internamento hospitalar.

Qualidade de vida, envelhecimento e hospitalização

O prolongamento da vida humana, que ocorre a nível mundial, é uma das maiores conquistas da humanidade, exigindo que os anos conquistados sejam acompanhados de QV6–9. O envelhecimento é um processo heterogéneo e complexo, normal, universal e inevitável, vivenciado de forma individual e singular8.

A QV é um conceito subjetivo, complexo e multidimensional, determinado pela perceção individual e por fatores ambientais e biológicos (como idade, etnia, cultura e estatuto socioeconómico). Trata‐se de um conceito dinâmico que varia ao longo do tempo, tendo em conta as aspirações, ambições e perceções individuais em cada momento da vida10. Neste estudo adota‐se a definição da OMS (1994), que também é a definição utilizada no Programa Nacional para a Saúde das Pessoas Idosas11. A QV12 segundo a OMS «é uma perceção individual da posição na vida, no contexto do sistema cultural e de valores em que as pessoas vivem e relacionada com os seus objetivos, expectativas, normas e preocupações. É um conceito amplo, subjetivo, que inclui de forma complexa a saúde física da pessoa, o seu estado psicológico, o nível de independência, as relações sociais, as crenças e convicções pessoais e a sua relação com os aspetos importantes do meio ambiente». Nesta definição prevalece a ideia de subjetividade (perspetiva individual), multidimensionalidade (várias dimensões), umas positivas e outras negativas (para uma «boa» QV é necessário alguns elementos estarem presentes e outros ausentes), envolvendo influência de fatores internos e externos (por exemplo, hábitos e estilo de vida).

A QV nas pessoas idosas assume contornos específicos, pois existem diferentes formas de ser idoso e diferentes padrões de envelhecimento10. Nesta fase da vida a QV associa‐se ao passado (principalmente aos estilos de vida adotados), ao presente (sobretudo na forma como se encara o envelhecimento) e às perspetivas de futuro, mesmo que limitado (nomeadamente no sentido e projetos para os próximos tempos de vida)3,13,14. Frequentemente, a QV nas pessoas idosas tem sido associada à (in)dependência funcional, pois o aumento da idade tende a ser acompanhado pela deterioração de capacidades funcionais e aumento de doenças que potenciam a dependência9,15. De sublinhar que nas pessoas idosas há tendência para utilizar o estado de saúde e QV como sinónimos, contudo, a distinção deve ser efetuada16: a QV pode ser consequência do estado de saúde, mas a saúde é apenas um dos determinantes da QV. Além disso, outros aspetos influenciam a QV nos mais idosos, tais como15: rendimentos (por exemplo, as reformas baixas, insuficientes para enfrentar as necessidades, limitam a autonomia e diminuem a QV); reforma (pode levar à perda de papéis sociais e diminuição da autoestima); e o afastamento do meio (por exemplo através da institucionalização ou saída da própria casa para viver com um filho/a). Assim, a QV nas pessoas idosas depende da aquisição de atitudes e processos de coping que lhe permitam adaptar‐se (capacidade adaptativa), encontrando formas (dentro das suas circunstâncias) de permanecer envolvida com o seu meio17.

A QV nas pessoas idosas é relevante para compreender o processo de envelhecimento e para desenvolver estratégias que visem o bem‐estar nesta fase de vida. Um internamento hospitalar, em qualquer idade, é um momento vivido com elevada ansiedade; torna‐se mais complexo nos mais idosos pela associação à morte, dependência e doença. Além disso, a hospitalização tende a reforçar sentimentos negativos da pessoa idosa, principalmente porque fica mais frágil, ansiosa e com sensação de isolamento18. A literatura indica que, após a alta hospitalar, principalmente as pessoas idosas tendem a apresentar declínio funcional e maior morbilidade e mortalidade nos meses seguintes19.

As taxas e duração de internamento hospitalar são superiores nas pessoas idosas, por comparação com as observadas noutros grupos etários20. Alguns dados hospitalares portugueses indicam que mais de um terço do total das altas hospitalares corresponde a pessoas com mais de 65 anos, sendo que cerca de 53% têm períodos de internamento superiores a 20 dias21. Segundo Boltz e Harrington22, entre 2002‐2017 haverá um aumento de 78% de internamentos hospitalares de pessoas idosas e de 16% nos restantes grupos etários. Cerca de metade dos internamentos tem como principais causas doenças do foro circulatório e respiratório4,23–26. Hayes27 indica que em cada pessoa idosa independente tendem a existir 3 problemas crónicos, que são a principal causa de internamento hospitalar devido a descompensação da doença. Em Portugal os dados são similares, indicando que as principais causas de hospitalização são doenças dos aparelhos respiratórios e circulatórios.

Em Portugal não foram encontrados estudos sobre hospitalização e QV. É pertinente conhecer a QV das pessoas idosas quando chegam ao internamento hospitalar para poder planear serviços que respondam às suas necessidades, vulnerabilidades e forças, mantendo ou reforçando a sua QV e minimizando o impacto da doença e do internamento.

Objetivos

Este estudo analisa a QV da pessoa idosa no momento de admissão num internamento hospitalar, analisando a influência de variáveis sociodemográficas, patologia e antecedentes clínicos. Os resultados são relevantes para o planeamento de medidas de promoção da QV no âmbito dos cuidados às pessoas idosas durante o internamento hospitalar.

Métodos

Foi adotada uma metodologia quantitativa, de características descritivas, comparativas e correlacionais. Este estudo foi aprovado pelo Conselho de Ética (n.° 762/CA) do Hospital Infante D. Pedro, E.P.E., em 14 outubro de 2009.

Instrumentos

No estudo utilizou‐se o questionário compreendendo várias questões e uma escala: i) dados socioeconómicos (sexo, idade, escolaridade, profissão anterior à reforma, local de residência, diagnóstico ou motivo de internamento, data de internamento, tipo de apoio social recebido); ii) EasyCare, versão portuguesa validada em 200928.

EasyCare (sistema de avaliação de idosos)

O EasyCare foi desenvolvido no âmbito do programa European Prototype Care (EPIC), como um instrumento de rápida e simples utilização, para identificar múltiplas necessidades e avaliar diferentes domínios de QV em pessoas idosas (≥75 anos). O instrumento foi construído com base noutras escalas: índice de Barthel; SF‐36 Health Survey; Geriatric Depression Scale, Dukes OARS; IALD Scales; WHO‐11 Counties Survey Instrument; Cognitive Impairment Test. A primeira versão (2002) foi validada para a população portuguesa por Sousa, Galante e Figueiredo1; os resultados revelaram boas qualidades psicométricas. Em 2008, a Universidade de Sheffield, com representantes de outros países, reuniram para atualizar o instrumento. Surge a versão 2009, destinada a pessoas idosas com ≥65 anos de idade.

O EasyCare (2009) envolve 2 componentes: EasyCare Standard (dados sociodemográficos, aspetos sensoriais, autocuidado, mobilidade, segurança, condições de habitação, situação financeira, atividade física e saúde mental e bem‐estar); EasyCare Supporting Instruments (permite obter dados adicionais sobre cuidadores informais e medicação). Neste estudo apenas se aplicou a componente standard. A validação linguística para Portugal foi efetuada por Sousa, Figueiredo e Guerra9. O EasyCare apresenta um sistema de pontuação, em que valores mais elevados significam menor QV e maior incapacidade; a pontuação pode variar entre um mínimo de 4 e um máximo de 144. O EasyCare é administrado à pessoa idosa para obter a sua perceção sobre as suas competências. Assim, a principal limitação é a impossibilidade de aplicação a pessoas que não se possam exprimir (afasia ou outras alterações da linguagem ou alterações cognitivas).

Procedimentos

Neste estudo foi utilizada uma amostra não probabilística (intencional), sendo selecionadas pessoas idosas (≥65 anos) internadas no serviço de Medicina 1, 2 e 3 do Hospital Infante D. Pedro, E.P.E. Este local foi escolhido intencionalmente por ser o local de trabalho da autora e por ser uma instituição parceira da Universidade de Aveiro. Além disso, Nicolau et al.29 analisaram a mortalidade e internamentos hospitalares por concelhos de Portugal Continental, verificando que o distrito de Aveiro apresenta uma das taxas mais elevadas de internamentos hospitalares do país; optou‐se pelo serviço de Medicina Interna porque apresenta as taxas de internamento mais elevadas de pessoas idosas.

O tamanho da amostra foi determinado após pesquisa sobre o número de doentes com ≥65 anos admitidos no serviço de Medicina Interna em 2009 (ano anterior à recolha dos dados), através do Gabinete de Gestão de Informação do Hospital. Verificou‐se o internamento de 391 pessoas idosas em 2009; uma amostra representativa30 incluiria 196 participantes para um erro amostral de 5% e um nível de confiança de 95%; mas optou‐se por 250 participantes, considerando a potencial morte experimental (este estudo faz parte de um projeto de investigação que analisa a influência da hospitalização na QV em 3 fases: admissão, alta e 6 meses após o internamento).

Para esta amostra foram definidos critérios de inclusão e exclusão. Os de inclusão são: idade ≥65 anos, apresentar discurso coerente, orientado no tempo e no espaço, auto e halo psiquicamente. Os critérios de exclusão são: défice cognitivo, debilidade intelectual com perda da crítica e capacidade de julgamento e capacidade de aprendizagem, alteração da comunicação (i. e. afasia de expressão e compreensão e atrasos significativos da linguagem), patologias associadas que alterem a capacidade cognitiva (por exemplo, síndrome de Down, doença de Alzheirmer, doença de Parkinson e doenças do foro psiquiátrico).

Os 250 questionários foram administrados por entrevista no momento de admissão do doente no serviço; após o acolhimento pelo profissional de serviço, os doentes eram contactados pela autora da investigação que pedia a sua colaboração. As entrevistas decorreram no hospital, sempre em locais que respeitavam a privacidade, após a assinatura do consentimento livre e esclarecido. A recolha de dados decorreu entre janeiro e agosto de 2010. A duração média das entrevistas foi de 30/40 minutos. As pessoas idosas, especialmente as que vivem sós, necessitavam contar as suas histórias de vida, prolongando as entrevistas.

Amostra

A amostra é constituída por 250 participantes, 50,4% do sexo feminino (tabela 1). A média etária é de 79,63 anos (DP=7,64), residindo 59,6%, em meio urbano. Quanto ao estado civil, 49,2% dos entrevistados são casados, 44,4% são viúvos e 2,4% são divorciados. Observa‐se que 41,6% vive em casal, 39,2% em família e 6% estão institucionalizados. A maioria dos participantes encontra‐se aposentada (62%). Em relação ao rendimento: 70% indica ser «suficiente» e 26,4% refere que «não chega para as necessidades». Verifica‐se predomínio de baixa escolaridade, sendo a média de 2,4 anos de escolaridade (DP=2). Em relação ao apoio social: 85,2% – sem apoio; 7,2% – lar de idosos; 6,8% – apoio domiciliar.

Tabela 1.

Caracterização da amostra: dados sociodemográficos

n=250 
Sexo
Feminino  126  50,4 
Masculino  124  49,6 
Residência
Rural  101  40,4 
Urbana  149  59,6 
Estado civil
Casado  123  49,2 
Divorciado  2,4 
Solteiro  10 
Viúvo  111  44,4 
Rendimento
Sobra algum dinheiro  3,6 
Suficiente  175  70 
Não chega para as necessidades  66  26,4 
Com quem vive?
Casal  104  41,6 
Família  98  39,2 
Sozinho  30  12 
Instituição  14  5,6 
Outra  1,6 
Situação profissional
Doméstica  0,8 
Trabalhador a tempo inteiro  10 
Pensionista  83  33,2 
Reformado  155  62 
Apoio social
Não  213  85,2 
Serviço de apoio domiciliário  17  6,8 
Lar de idosos  18  7,2 
Acolhimento familiar  0,8 

O diagnóstico clínico ou motivo de internamento (categorizados de acordo com os aparelhos do corpo humano) inclui: 36,8% – doenças respiratórias (51,1% do sexo masculino); 18,8% – com multipatologias (51,1% do sexo feminino); 14,4% do aparelho neuro‐hormonal (61,1% do sexo feminino); 11,6% do aparelho circulatório (62,06% do sexo feminino). Quanto aos antecedentes clínicos: 44% – mulitpatologias; 21,6% – aparelho circulatório; 9,2% – antecedentes clínicos relevantes (tabela 2).

Tabela 2.

Caracterização da amostra: diagnóstico e antecedentes clínicos

 
Diagnóstico ou motivo de internamento
Aparelho circulatório  29  11,6 
Aparelho respiratório  92  36,8 
Aparelho neuro‐hormonal  36  14,4 
Aparelho digestivo  20 
Aparelho excretor  18  7,2 
Esqueleto  3,2 
Multipatologias  47  18,8 
Antecedentes clínicos
Nenhum  23  9,2 
Aparelho reprodutor  0,4 
Aparelho circulatório  54  21,6 
Aparelho respiratório  14  5,6 
Aparelho neuro‐hormonal  25  10 
Aparelho digestivo  11  4,4 
Aparelho excretor  3,2 
Esqueleto  1,6 
Multipatologias  110  44 
Análise dos dados

A análise dos dados baseia‐se na estatística descritiva, correlacional e classificatória, apoiada no uso do software SPSS versão 19.

As variáveis sociodemográficas são apresentadas através da estatística descritiva. Começamos por analisar as qualidades psicométricas do EasyCare para a amostra em estudo. Procedeu‐se à análise em componentes principais (com rotação varimax) usando os 21 itens da escala (tabela 3) recomendados pelos autores. Depois calculou‐se a consistência interna através do α de Cronbach.

Tabela 3.

Contribuição dos itens para cada fator

Itens  Fator 1Sentidos  Fator 2AVD  Fator 3AIVD 
Q1.1. Consegue ver (com óculos, se usar)?  0,797  −0,061  0,033 
Q1.2. Consegue ouvir (com prótese auditiva, se usar)?  0,813  0,084  0,116 
Q1.3 Tem dificuldade em fazer‐se entender devido a problemas na sua fala?  0,273  0,532  0,058 
Q2.1. Consegue cuidar da sua aparência pessoal?  0,111  0,752  0,256 
Q2.2. Consegue vestir‐se?  0,102  0,673  0,456 
Q2.3. Consegue lavar as mãos e a cara?  −0,103  0,790  0,178 
Q2.7. Consegue alimentar‐se?  −0,050  0,795  0,142 
Q2.11. Tem acidentes com a sua bexiga?  −0,009  0,639  0,261 
Q2.12. Tem acidentes com os seus intestinos?  0,011  0,624  0,080 
Q2.13. Consegue utilizar a sanita (ou a cadeira sanitária)?  0,019  0,798  0,367 
Q3.1. Consegue deslocar‐se da cama para a cadeira, se estiverem lado a lado?  0,024  0,774  0,414 
Q3.3. Consegue deslocar‐se dentro de casa?  0,20  0,652  0,491 
Q1.4. Consegue utilizar o telefone?  0,337  0,308  0,604 
Q2.4. Consegue utilizar a banheira ou o duche?  0,064  0,521  0,618 
Q2.5. Consegue fazer as suas tarefas domésticas?  0,039  0,138  0,836 
Q2.6. Consegue preparar as suas refeições?  0,028  0,217  0,811 
Q2.9. Consegue tomar os seus medicamentos?  0,105  0,467  0,642 
Q3.4. Consegue subir e descer escadas?  0,070  0,444  0,674 
Q3.6. Consegue andar no exterior?  0,040  0,251  0,880 
Q3.7. Consegue ir às compras?  0,037  0,179  0,915 
Q3.8. Tem alguma dificuldade em se deslocar até serviços públicos?  0,023  0,188  0,902 

A negrito os valores mais elevados de cada fator.

Para estabelecer grupos de participantes no momento de admissão hospitalar procedeu‐se à análise de clusters (K‐means). Adotou‐se uma solução de 3 clusters, por ser a mais ajustada aos resultados (tabela 4). Em seguida analisou‐se a existência de alguma diferença ou tendência diferenciadora dos clusters em termos de sexo, residência, estado civil, «com quem vive», situação profissional, diagnóstico, antecedentes clínicos e apoio social. Para tal procedeu‐se ao cálculo das frequências esperadas que se comparam com as observadas, utilizando o χ2 (qui‐quadrado), que indica o desvio dos valores observados em relação ao valor esperado. Em relação às variáveis rendimento, escolaridade e idade calcularam‐se as médias de cada cluster, existindo diferenças estatisticamente significativas em todas as variáveis (tabela 6). Em seguida analisou‐se, calculando frequências observadas e esperadas, como os clusters variam com as restantes questões do instrumento (tabela 7). Efetuou‐se a análise através de médias e comparação com ANOVA das restantes questões do EasyCare (tabela 8). Os pressupostos para a aplicação desta ANOVA (normalidade e homogeneidade) foram cumpridos.

Tabela 4.

Grupos de qualidade de vida

  Cluster 1 – Dependentes(n=69; 27,6%)  Cluster 2 – Dependentes moderados(n=82; 32,8%)  Cluster 3 – Independentes(n=99; 39,6%)  Médias globaisdo fator 
Fator 1. Sentidos  0,29  0,27  0,17  0,24 
Fator 2. AVD  3,22  0,59  0,09  1,12 
Fator 3. AVID  3,88  2,82  0,60  2,21 
Tabela 6.

Cluster versus rendimento, escolaridade e idade: comparação de médias

n=250(médias)  Cluster 1(n=69; 27,6%)DependentesCluster 2(n=82; 32,8%)Dependentes moderadosCluster 3(n=99; 39,6%) Independentes
  DP  DP  DP 
Rendimento (2,23)(F=35,385; p<0,001)  2,35  0,538  2,26  0,492  2,12  0,458 
Escolaridade (2,41)(F=21,047; p<0,001)  1,48  1,76  2,11  1,86  3,30  1,94 
Idade (76,93)(F=4,510; p=0,012)  80,80  6,59  78,87  6,85  72,63  6,88 

A negrito os valores mais significativos.

Tabela 7.

Clusters versus outros domínios do EasyCare

n=250Variáveis  Cluster 1 (n=69; 27,6%)DependentesCluster 2 (n=82; 32,8)Dependentes moderadosCluster 3 (n=99; 39,6%)Independentes
  FO  FE  FO  FE  FO  FE 
Domínio “Cuidar de si”
Q2.8. Tem algum problema com a sua boca ou dentes? [χ2(1)=8,378, p=0,015]
Não  36  44,2  51  52,5  73  63,4 
Sim  33  24,8  31  29,5  26  35,6 
Q2.10. Já teve problemas com a sua pele? [χ2(2)=12,987, p=0,002]
Não  49  57,7  68,9  91  82,8 
Sim  20  11,3  13  13,4  16,2 
Domínio “Mobilidade”
Q3.2. Tem problemas com os seus pés? [χ2(3)=7,371, p=0,025]
Não  58  61,8  71  73,5  95  88,7 
Sim  11  7,2  11  8,5  10,7 
Domínio “Segurança”
Q4.1. Sente‐se seguro dentro de sua casa? [χ2(4)=12,401, p=0,002]
Sim  59 (−)  64,9  79 (=)  77,1  97  93,1 
Não  10 (+)  4,1  3 (=)  4,9  5,9 
Q4.2. Sente‐se seguro fora de sua casa? [χ2(5)=10,509, p=0,005]
Sim  53  60,4  74  71,8  92  86,7 
Não  16  8,6  10,2  12,3 
Q.4.3. Já alguma vez se sentiu ameaçado/a ou assediado/a por alguém? [χ2(6)=3,379, p=0,185]
Não  64  61,5  69  73,1  90  88,3 
Sim  7,5  13  8,9  10,7 
Q.4.4 Sente‐se discriminado por alguma razão? [χ2(7)=1,558, p=0,459]
Não  65  63,5  73  75,4  92  91,1 
Sim  5,5  6,6  7,9 
Q.4.5. Tem alguém que o possa ajudar em caso de doença ou urgência? [χ2(8)=0,100, p=0,951]
Sim  65  65,1  77  77,4  94  93,5 
Não  3,9  4,6  5,5 
Domínio “Local de Residência e Finanças”
Q5.1. De forma geral está satisfeita/o com a sua residência? [χ2(9)=8,969, p=0,011]
Sim  39  48,3  59  57,4  77  69,3 
Não  30  20,7  23  24,6  22  29,7 
Q5.2. Consegue gerir o seu dinheiro e os seus assuntos financeiros? [χ2(10)=70,198, p<0,001]
Sim  14  38,4  41  45,6  84  55,0 
Não  55  30,6  41  36,4  15  44,0 
Q5.3. Gostaria de obter aconselhamento acerca de subsídios ou benefícios a que possa ter acesso? [χ2(11)=3,669, p=0,160]
Não  12,7  15  15,1  23  18,2 
Sim  61  56,3  67  66,9  76  80,8 
Domínio “Manter‐se Saudável”
Q6.1. Faz exercício regularmente? [χ2(12)=9,547, p=0,008]
Sim  15,5  19  18,4  30  22,2 
Não  62  53,5  63  63,6  69  76,8 
Q6.2. Fica com falta de ar durante as atividades normais? [χ2 (13)=7,610, p=0,022]
Não  16  25,4  34  30,2  42  36,4 
Sim  53  43,6  48  51,8  57  62,6 
Q6.3. Fuma tabaco? [χ2(14)=9,066, p=0,011]
Não  66  60,7  74  72,2  80  87,1 
Sim  8,3  9,8  19  11,9 
Q6.4. Acha que bebe demasiadas bebidas alcoólicas? [χ2(15)=5,695, p=0,058]
Não  68  66,5  81  79,0  92  95,4 
Sim  2,5  3,0  3,6 
Q6.5. A sua tensão arterial foi verificada recentemente? [χ2(16)=4,200, p=0,122]
Sim  55  53,8  69  64  71  77,2 
Não  14  15,2  13  18  28  21,8 
Q6.6. Tem alguma preocupação com o seu peso? [χ2(17)=0,600, p=0,963]
Não tem preocupações  54  53,8  62  64,0  79  77,2 
Com perda de peso  8,8  11  10,5  12  12,7 
Com excesso de peso  6,3  7,5  9,1 
Q6.7. Tem as suas vacinas em dia? [χ2(18)=4,086, p=0,394]
Não  5,8  6,9  11  8,3 
Não sabe  45  43,1  52  51,2  59  61,8 
Sim  22  20,1  22  23,9  29  28,9 
Domínio “Saúde Mental e Bem‐Estar”
Q7.1. Consegue realizar atividades de lazer, trabalho e outras actividades importantes para si? [χ2(19)=61,626, p<0,001]
Sim  20  44,4  54  52,8  87  63,8 
Não  49  24,6  28  29,2  12  35,2 
Q7.3. Sente‐se sozinho/a? [χ2(20)=37,669, p=0,000]
Nunca  5,2  6,2  12  7,5 
Por vezes  18  36,2  49  43,0  64  51,9 
Muitas vezes  56  27,6  31  32,8  23  39,6 
Q7.4. Recentemente perdeu ou faleceu alguém que lhe é próximo? [χ2(21)=0,236, p=0,889]
Não  29  30,1  35  35,8  45  43,2 
Sim  40  38,9  47  46,2  54  55,8 
Q7.5. No mês passado teve alguns problemas em dormir? [χ2(22)=2,626, p=0,269]
Não  22  27,6  35  32,8  43  39,6 
Sim  47  41,4  47  49,2  56  59,4 
Q7.7. No último mês sentiu‐se muitas vezes incomodado por se sentir em baixo, deprimido ou desesperado? [χ2(23)=25,585, p<0,001]
Não  18  34,5  44  41,0  63  49,5 
Sim  51  34,5  38  41,0  36  49,5 
Q7.8. No último mês sentiu‐se muitas vezes incomodado por ter pouco interesse ou prazer em fazer coisas? [χ2(24)=27,059, p<0,001]
Não  21  39,2  54  46,6  67  56,2 
Sim  48  29,8  28  35,4  32  42,8 
Q7.9. Tem algumas preocupações em relação a perdas de memória ou esquecimentos? [χ2(25)=18,053, p=0,000]
Não  38  50,0  59  59,4  84  71,7 
Sim  31  19,0  23  22,6  15  27,3 

Legenda: FO=frequência observada; FE=frequência esperada.

Tabela 8.

Clusters versus EasyCare: comparação de médias

n=250Variáveis (médias)  Cluster 1 (n=69; 27,6%)DependentesCluster 2 (n=82; 32,8%)Dependentes moderadosCluster 3 (n=99; 39,6%) Independentes
  DP  DP  DP 
Domínio “Mobilidade”
Nos últimos 12 meses caiu alguma vez? (F=17,921; p<0,001)  0,70  0,713  0,56  0,713  0,16  0,422 
Domínio “Saúde Mental e Bem‐Estar”
De forma geral, diria que a sua saúde é? (F=46,370; p<0,001)  4,48  0,740  3,78  0,847  3,34  0,673 
No mês passado teve dores corporais? (F=4,631; p=0,011)  1,45  1,586  1,02  1,523  0,76  1,278 
ResultadosEasyCare: estudo das qualidades psicométricas

Através da análise em componentes principais obteve‐se uma solução de 3 fatores que explicam 66,2% da variância (tabela 3).O cálculo das contribuições de cada item para cada fator permitiu obter a seguinte organização fatorial (tabela 3): fator 1 – Sentidos (itens que traduzem aspetos sensoriais); fator 2 – Atividades de vida diária (AVD) (itens que representam as atividades quotidianas de autocuidado); fator 3 – Atividades instrumentais da vida diária (AIVD) (itens que descrevem atividades necessárias à adaptação ao ambiente, envolvendo capacidades cognitivas).

A consistência interna através do α de Cronbach apresenta valores que variam: Sentidos (fator 1)=0,55; AVD (fator 2)=0,89; AIVD (fator 3)=0,93. A consistência interna da escala global apresenta um valor muito satisfatório (α=0,93).

Grupos de qualidade de vida

Os grupos de participantes organizados por clusters (tabela 4) foram classificados em: cluster 1 – dependentes (27,6%), envolve participantes dependentes nas AVD e AIVD; cluster 2 – dependentes moderados (32,8%), engloba pessoas dependentes nas AIVD e pouco dependentes nas AVD; cluster 3 – independentes (39,6%), inclui participantes independentes nas AVD e AVID e sem problemas sensoriais.

Os resultados indicam distribuições diferentes nas variáveis (tabela 5): estado civil (existem mais viúvos e menos casados do que o esperado no grupo dos dependentes e dependentes moderados; existem menos viúvos e mais casados no grupo dos dependentes); com quem vive (no grupo dos dependentes existem mais participantes a viver em família, instituição e sozinhos, e menos a viver em casal do que o esperado; no grupo dos dependentes moderados existem menos a viver em instituição do que o esperado; nos independentes há mais participantes a viver em casal e menos a viver em família do que o esperado).

Tabela 5.

Clusters versus estado civil e com quem vive

n=250Variáveis  Cluster 1 (n=69; 27,6%)DependentesCluster 2 (n=82; 32,8)Dependentes moderadosCluster 3 (n=99; 39,6%)Independentes
  FO  FE  FO  FE  FO  FE 
Estado civil [χ2(3)=47,181, p<0,001]
Casado  21  33,9  33  40,3  69  48,7 
Divorciado  1,7  2,0  2,4 
Solteiro  2,8  3,3  4,0 
Viúvo  46  30,6  43  36,4  22  44 
Com quem vive [χ2(4)=66,231, p<0,001]
Casal  16  28,7  28  34,1  60  41,2 
Família  35  27,0  39  32,1  24  38,8 
Instituição  13  3,9  4,6  5,5 
Outra  1,1  1,3  1,6 
Sozinho  8,3  13  9,8  15  11,9 

FE: frequência esperada; FO: frequência observada.

Os resultados demonstram que quem é dependente tem uma média etária superior, apresenta escolaridade inferior e tem os rendimentos mais baixos (tabela 6). Os dependentes moderados apresentam valores intermédios; os independentes são mais novos, têm escolaridade superior e os rendimentos mais elevados.

Em relação aos problemas com a boca ou dentes (domínio “Cuidar de Si”) e com os pés e com a pele (domínio “Mobilidade”) verifica‐se que no grupo dos dependentes existem mais participantes do que o esperado com esses problemas; no grupo dos independentes existem menos do que o esperado (tabela 7).

No domínio “Segurança” dentro e fora de casa verifica‐se que nos dependentes existem menos participantes do que o esperado que sentem esse problema; no grupo dos independentes mais do que o esperado sente esses problemas.

No domínio “Local de Residência e Finanças” verifica‐se: i) quanto à satisfação com a residência, nos dependentes há mais do que o esperado que não estão satisfeitos; nos independentes há mais satisfeitos do que o esperado; ii) na gestão financeira, entre os dependentes e dependentes moderados há mais participantes do que o esperado que não consegue assegurar essa gestão; nos independentes há mais do que o esperado que consegue fazer essa gestão.

No domínio “Manter‐se Saudável” observa‐se que: i) quanto ao exercício regular, nos dependentes há mais do que o esperado que não o faz; nos independentes há mais do que o esperado a praticar exercício regular; ii) sobre ficar com falta de ar em atividades regulares, nos dependentes há mais do que o esperado que fica com falta de ar; nos dependentes moderados e independentes há menos do que o esperado a revelar falta de ar. O consumo de tabaco e álcool é referido por poucos participantes (respetivamente: 30 e 10).

No domínio “Saúde mental e Bem‐estar” os dados indicam que: i) quanto à realização de atividades significativas, nos dependentes há mais do que o esperado que não o faz; nos independentes há mais do que o esperado que o faz; ii) sobre sentir‐se só, nos dependentes há mais do que o esperado que se sente muitas vezes só; nos dependentes moderados há mais do que o esperado que se sente por vezes só; e nos independentes há mais que nunca ou por vezes se sentem sós; iii) em relação a sentir‐se deprimido e com pouco interesse em fazer coisas no último mês, nos dependentes há mais do que o esperado a sentir; nos dependentes moderados e independentes há mais do que o esperado a não sentir; iv) sobre preocupações com esquecimentos, nos dependentes há mais do que o esperado que sente; nos independentes há menos do que o esperado a sentir.

Os dados indicam que os dependentes (por comparação com os outros 2 grupos) caíram (domínio “Mobilidade”) mais vezes nos últimos 12 meses, percecionam menos saúde e no mês passado tiveram mais dores corporais (domínio “Saúde Mental e Bem‐Estar”). Os independentes apresentam os resultados mais favoráveis e os dependentes moderados os intermédios (tabela 8).

Discussão

Os dados revelam 3 grupos de QV: dependentes (27,6%), dependentes moderados (32,8%) e independentes (39,6%). O grupo dos dependentes tem idade mais elevada, rendimentos mais baixos e menor escolaridade; os independentes são mais novos, com rendimentos superiores e maior escolaridade (os dependentes moderados apresentam os valores intermédios). Saliente‐se que muitos dos participantes já foram internados noutros momentos da sua fase idosa, pois este grupo etário apresenta taxas de internamento hospitalar mais elevadas que outros grupos etários20, mas alguns enfrentam o seu primeiro internamento. A idade, escolaridade e rendimentos são 3 variáveis que, principalmente associadas, dão informações relevantes sobre a situação da pessoa idosa: é expectável que pessoas mais velhas, com pouca escolaridade e baixos rendimentos apresentem maior dependência. Esta é uma tendência reiterada na literatura, demonstrando que as pessoas idosas de classes socioeconómicas mais baixas são mais vulneráveis, pois ao longo da vida viveram em condições mais difíceis e tiveram menos cuidado(s) com a saúde1.

Também no contexto familiar existem diferenças entre os grupos: existem mais viúvos entre os dependentes e dependentes moderados e mais casados ou divorciados nos independentes. Como os dependentes tendem a ser mais velhos, a probabilidade de serem viúvos é mais elevada. Contudo, a literatura sugere que as pessoas casadas tendem a sentir‐se mais capazes, porque se entreajudam enquanto casal; já os viúvos podem sentir‐se um fardo e mais dependentes, pois sentem que recebem mais do que dão (menor reciprocidade)31. Os dados indicam que os participantes a viver em instituição tendem a ser mais dependentes, provavelmente indicando que a família cuida dos idosos enquanto estão independentes ou moderadamente dependentes; mas optam pela institucionalização quando a dependência aumenta e diminui a sua capacidade de prestar cuidados adequados1. A institucionalização, na sequência da doença/dependência, é um dos principais medos das pessoas idosas quando são internadas; de facto, a alta hospitalar é muitas vezes acompanhada de institucionalização ou apoio social (como serviço de apoio domiciliar). Os serviços hospitalares terão de durante o internamento promover a independência, mas também terão de preparar a eventual ou provável necessidade de apoio mais frequente. Esta situação tem de envolver a pessoa idosa internada e a família e exige dos profissionais de saúde a capacidade de mediar decisões.

Os profissionais de saúde que acompanham o internamento hospitalar (principalmente enfermeiros e médicos) sabem que tendencialmente os idosos dependentes estão em situações sociais mais desfavoráveis. Neste caso, destaque‐se que estas pessoas tendem a delegar a gestão financeira noutros (familiares ou instituição); com frequência fazem‐no apressadamente no momento de hospitalização, podendo não se salvaguardar e confiar em pessoas que os defraudam32. Embora seja complexo um profissional de saúde estar atento a estas situações, é importante que em casos suspeitos envolvam um técnico de serviço social.

O grupo de dependentes está menos satisfeito com a sua habitação, principalmente os institucionalizados ou aqueles que foram viver para casa de familiares, ou seja, foram retirados da sua casa e não se sentem satisfeitos com a sua nova habitação ou têm dificuldades de adaptação. As pessoas idosas nutrem laços de afetividade pela sua casa, que representa/contém as recordações da sua vida, além disso, estar em casa associa‐se a sentimentos de autonomia e independência. Quando sentem insatisfação com a casa e são internados no hospital (local estranho e temido) é de prever períodos de desorientação que com frequência acarretam quedas33. Neste caso, a apresentação do local é fundamental, explicando porque um contexto hospitalar apresenta certas características, que garantem a qualidade dos cuidados.

Os dependentes tendem a fazer menos exercício físico, a ter mais falta de ar nas atividades quotidianas e mais problemas com a boca/dentes, pés e pele. No internamento hospitalar isto representa mais cuidados de saúde, logo é necessário disponibilizar mais recursos.

Os dependentes não realizam atividades importantes para si e sentem‐se mais deprimidos. O contexto de hospitalização tende a reforçar estas situações (mesmo em pessoas não dependentes no momento da hospitalização), pelo que o diagnóstico deve ir além da patologia, envolvendo outras esferas da vida. Durante o internamento hospitalar a pessoa idosa vê (ou pelo menos antevê) transformações na sua vida, ocasionando momentos de fragilidade emocional34. É importante os profissionais de saúde identificarem situações que provocam desconforto, procurando minimizá‐las.

Limites e perspetivas de pesquisa

Será relevante comparar os resultados entre a admissão e alta hospitalar para compreender a influência da hospitalização na QV. Também seria pertinente perceber as relações familiares e a história de vida de cada utente para analisar o impacto na QV. Além disso, será relevante complementar com a perspetiva dos familiares e profissionais de saúde. Como limitação do estudo, é importante referir a amostra. O EasyCare é um instrumento de perceção individual sobre a QV e neste estudo obteve‐se a perceção das pessoas idosas capazes de responder ao questionário. Um próximo estudo poderá incluir utentes mais dependentes. Este estudo é quantitativo, por isso outra pesquisa poderá complementar com uma abordagem qualitativa, para perceber melhor o significado da QV dos participantes.

Conclusões

Este estudo foca a QV de pessoas idosas no momento de hospitalização. Os dados permitem compreender melhor as características das pessoas idosas quando chegam a um internamento hospitalar, permitindo delinear ações e estratégias de organização dos serviços e ação dos profissionais. O estudo indica 3 grupos de pessoas idosas no momento do internamento hospitalar: independentes, dependentes nas AVID e pouco dependentes nas AVD; dependentes. Este cenário demonstra que os serviços hospitalares vão encontrar pacientes com diferentes necessidades pessoais e de cuidados, assim, há que diferenciar a abordagem. Além disso, os resultados apontam para a influência do estatuto socioeconómico, nível educativo, estado civil e situação em que vivem (casa própria, com familiares ou instituição). Também estas circunstâncias de vida devem ser consideradas durante o internamento e sobretudo na preparação da alta.

Os resultados reforçam que estilos de vida, condições sociodemográficas e características individuais são fatores preponderantes na perceção da QV e do internamento hospitalar. Assim, é relevante que os profissionais de saúde valorizem todas as dimensões da QV para melhor estruturarem os serviços e cuidados hospitalares.

Conflito de interesses

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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