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Inicio Revista Portuguesa de Saúde Pública Prevalência e controle da hipertensão arterial em idosos: um estudo populacion...
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Vol. 34. Issue 2.
Pages 117-124 (May - August 2016)
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Vol. 34. Issue 2.
Pages 117-124 (May - August 2016)
Artigo original
DOI: 10.1016/j.rpsp.2016.04.001
Open Access
Prevalência e controle da hipertensão arterial em idosos: um estudo populacional
Prevalence and control of hypertension in the elderly: A population study
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Tarciana Nobre de Menezesa,
Corresponding author
tnmenezes@hotmail.com

Autor para correspondência.
, Elaine Cristina Tôrres Oliveirab, Milena Abreu Tavares Sousa Fischerc, Gustavo Henrique Estevesd
a Departamento de Fisioterapia e Mestrado em Saúde Pública, Universidade Estadual da Paraíba/UEPB, Campina Grande, PB, Brasil
b Núcleo de Ciências Humanas Sociais e Políticas Públicas (NUCISP), Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas/UNCISAL, Maceió, AL, Brasil
c Programa de Pós‐Graduação em Gerontologia Biomédica, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil
d Departamento de Estatística, Universidade Estadual da Paraíba/UEPB, Campina Grande, PB, Brasil
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Tabela 1. Distribuição dos idosos com HAS diagnosticada e fatores associados. Campina Grande, Paraíba, Brasil
Tabela 2. Distribuição dos idosos com HAS referida e fatores associados. Campina Grande, Paraíba, Brasil
Tabela 3. Distribuição dos idosos com HAS controlada e fatores associados. Campina Grande, Paraíba, Brasil
Tabela 4. Modelo de regressão logística multivariada. Variáveis associadas com HAS diagnosticada, referida e controlada. Campina Grande, Paraíba, Brasil
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Resumo
Objetivo

Estimar a prevalência de hipertensão arterial sistêmica (HAS) e fatores associados em idosos de Campina Grande/Paraíba.

Métodos

Estudo transversal, de base populacional. Foram verificadas prevalências de HAS diagnosticada, referida, controlada e associações com variáveis sociodemográficas.

Resultados

Foram avaliados 806 idosos. A HAS diagnosticada associou‐se ao sexo feminino, grupo etário 70‐79 anos e menos de 8 anos de estudo. A HAS referida associou‐se ao sexo feminino e à etnia não branca. A HAS controlada associou‐se à etnia branca e a 8 anos ou mais de estudo.

Conclusão

Idosos apresentaram elevadas prevalências de HAS e baixo controle da doença.

Palavras‐chave:
Idosos
Hipertensão
Prevalência
Fatores de risco
Abstract
Objective

To estimate the prevalence of high blood pressure (HBP) and associated factors in older subjects of Campina Grande/Paraíba.

Methods

This is a cross‐sectional population‐based study. Prevalence of diagnosed, self‐reported and controlled HBP and associations with sociodemographic variables were observe.

Results

This study included 806 older subjects. Diagnosed HBP was associated with female gender, age group 70‐79 years and schooling less than 8 years of study. Self‐reported HBP was associated with female gender and nonwhite ethnicity. Controlled hypertension was associated with white ethnicity and schooling of eight years or more.

Conclusion

Elderly subjects in this study showed high prevalence of hypertension and poor control of the disease.

Keywords:
Elderly
Hypertension
Prevalence
Risk factors
Full Text
Introdução

O crescimento da população de idosos é um fenômeno mundial que vem ocasionando transformações nas sociedades1. No Brasil, a tendência de crescimento é semelhante, tendo em vista que a expectativa de vida ao alcançar a idade de 60 anos, em 2013, passou a ser cerca de 20 anos de vida a mais para os homens e 23 anos de vida a mais para as mulheres2.

O processo de envelhecimento acarreta alterações orgânicas naturais que ocasionam maior vulnerabilidade aos indivíduos, principalmente ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT)3, entre elas a hipertensão arterial sistêmica (HAS), doença crônica que apresenta maior prevalência entre os idosos no Brasil4.

Por ser uma doença de curso silencioso e de múltiplos fatores de risco5, o diagnóstico precoce da HAS, assim como o conhecimento dos fatores envolvidos, são necessários para garantir maior controle, melhor opção de tratamento e diminuição de hospitalizações e complicações em decorrência da doença6.

Pesquisas realizadas tanto no Brasil7–11 como em outros países12–15 têm verificado elevada prevalência de HAS na população idosa. Contudo, o controle da pressão arterial (PA) tem sido encontrado em apenas um quarto dos indivíduos sob tratamento16, situação preocupante devido às possíveis complicações que níveis pressóricos alterados podem ocasionar.

Diante do fato de que ações preventivas e terapêuticas direcionadas à HAS reduzem substancialmente a morbimortalidade por doenças cardiovasculares17, é de grande importância que se monitore e analise o perfil e os fatores determinantes e condicionantes referentes à HAS, de modo a detectar mudanças nas suas tendências no tempo, no espaço geográfico e em grupos populacionais, contribuindo para o planejamento de ações na área da saúde18.

Em virtude dos estudos epidemiológicos sobre a prevalência de HAS no âmbito populacional estarem especialmente concentrados nas regiões sul e sudeste do Brasil16, torna‐se importante a compreensão da distribuição da doença e suas peculiaridades em regiões do país onde a informação ainda não está disponível ou se encontra incipiente, como é o caso da região nordeste.

Além do mais, outra característica que corrobora com a necessidade de mais estudos na região nordeste se deve ao fato de que a região apresenta a terceira maior distribuição percentual de idosos do país (12,4%)2, fato de extrema relevância para as pesquisas sobre HAS devido à constatação de que a doença é mais prevalente entre os idosos.

Dessa forma, o presente estudo buscou estimar a prevalência de HAS diagnosticada, referida e controlada e fatores associados em idosos de um município do interior do nordeste brasileiro, de modo a possibilitar melhor compreensão sobre o problema e contribuir para a organização de ações que busquem prevenção, tratamento e controle efetivos da doença.

Material e métodos

Trata‐se de um estudo de base populacional, domiciliar, do tipo transversal, com recolha de dados primários. A população é constituída por indivíduos com 60 anos ou mais, residentes habituais em Campina Grande/Paraíba. Foram excluídos do estudo idosos que apresentassem debilidade clínica grave que impossibilitasse o seu manuseio no momento da recolha; e os idosos que estivessem ausentes de Campina Grande por mais tempo que a pesquisa de campo naquele setor censitário.

Para o cálculo da amostra foi utilizado uma estimativa de prevalência dos eventos esperados de, no mínimo, 50% (Menezes e Marucci, «Artigo não publicado»), com limite de confiança de 95%, admitindo‐se um erro de 5%. Devido à amostra ter sido obtida por conglomerados realizou‐se uma correção amostral (2,1), resultando em uma amostra de 806 idosos.

A amostra foi constituída por idosos residentes em 24 setores censitários, dos 6 distritos sanitários de Campina Grande. Em cada distrito sanitário foram sorteados 4 setores censitários, totalizando os 24. Para seleção da amostra foi utilizada a metodologia adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divide as cidades em setores censitários, os quais foram obtidos de forma aleatória.

A seleção dos domicílios foi realizada de forma sistemática e a obtenção da amostra ocorreu da seguinte forma: todos os quarteirões de cada setor censitário foram numerados, para posterior sorteio. Após escolha aleatória do quarteirão, a identificação do primeiro domicílio ocorreu considerando como ponto de partida a esquina inicial do setor, em sentido horário. A cada domicílio selecionado foi saltado um número de 9 domicílios, de acordo com cada setor censitário, e assim sucessivamente, a fim de obter‐se melhor distribuição. Esse número corresponde à razão entre o número total de domicílios do setor e o número de idosos a serem entrevistados no mesmo setor. Foi considerado domicílio o local utilizado como habitação de uma ou mais pessoas.

Se no domicílio selecionado não residisse idoso ou se o mesmo não aceitasse ou não pudesse participar do estudo, outro idoso foi procurado no domicílio vizinho, sendo considerado para essa busca o sentido horário. Nos casos em que nesse domicílio vizinho também não residisse idoso, ou se o mesmo não aceitasse ou não pudesse participar do estudo, foi feita a busca no domicílio vizinho no sentido anti‐horário e assim sucessivamente. No caso de residir mais de um idoso no mesmo local, todos foram convidados a participar do estudo. Quando residia idoso no domicílio, porém o mesmo estava ausente, eram realizadas até mais 2 visitas de retorno.

Neste estudo foram verificadas as prevalências de HAS diagnosticada, HAS referida e HAS controlada e suas associações com as variáveis sociodemográficas. As variáveis dependentes utilizadas neste estudo foram:

  • HAS diagnosticada: para obtenção dessa informação a PA foi aferida com esfigmomanômetro de mercúrio e estetoscópio clínico. Ao constatar que o idoso havia fumado e/ou tomado café e/ou se alimentado, as aferições da PA foram realizadas 30 minutos depois do evento. Foram realizadas 3 aferições, com intervalo de 2 minutos. Para análise, foi utilizado o valor médio das 3 aferições. Foram considerados hipertensos os indivíduos com valor de PA sistólica ≥140mmHg e/ou PA diastólica90mmHg7 e/ou em uso de anti‐hipertensivos. As aferições da PA foram realizadas conforme recomendação The Seventh Report of the Joint National Committee on Prevention, Detection, Evaluation, and Treatment of High Blood Pressure19.

  • HAS referida: inclui informação sobre a resposta do idoso à pergunta «Um médico ou outro profissional de saúde lhe disse que você tem alguma dessas doenças?», tendo o idoso 8 opções de resposta, entre elas a HAS.

  • HAS controlada: fizeram parte desse grupo apenas aqueles idosos que estivessem em tratamento para a doença por meio de uso de medicamentos anti‐hipertensivos. Dentre estes, foram classificados com HAS controlada aqueles com a PA sistólica <140mmHg e PA diastólica <90mmHg.

As variáveis independentes utilizadas para fins de análise foram: sexo, grupo etário (60‐69 anos, 70‐79 anos, 80 anos ou mais), etnia (branca, não branca), situação conjugal (casado, não casado), anos de estudo (8 anos ou mais, menos de 8 anos), número de residentes por domicílio (sozinho, 2, 3‐5, 6 ou mais).

Análise estatística

Foram estimadas as prevalências de HAS diagnosticada e referida, além da prevalência de idosos com HAS controlada. Foi realizada análise univariada, utilizando‐se o teste de qui‐quadrado de Pearson (χ2) para observar as possíveis associações entre as variáveis dependentes e as independentes. Para identificação dos fatores associados à HAS diagnosticada, referida e controlada, foram realizadas análises de regressão logística univariada. Para o modelo final, foi realizada regressão logística multivariada, com o método de inclusão passo a passo (forward stepwise), para o cálculo do OR ajustado. Foram selecionadas as variáveis que obtiveram um p0,20, a partir do modelo de regressão univariada. Considerou‐se o intervalo de confiança (IC) de 95%. A análise estatística foi efetuada com o auxílio do aplicativo estatístico livre R.

Aspectos éticos

Todos os idosos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido após receberem explicações verbais e escritas a respeito do estudo. O estudo maior, do qual este faz parte, foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual da Paraíba (protocolo n.o 0136.0.133.000‐06), não havendo conflito de interesses.

Resultados

A amostra deste estudo foi composta por 806 idosos (69,1% mulheres). A idade dos participantes do estudo variou de 60‐103 anos, tendo média de 72,4 anos (DP=8,76). A prevalência de HAS entre os idosos foi de 75,6% (IC95%=71,1‐77,9). Na tabela 1 são apresentados os valores da análise univariada entre a prevalência de HAS diagnosticada e fatores associados, assim como os valores dos odds ratio não ajustados. Para essa informação foram recolhidos os dados de 803 idosos, tendo em vista que em 3 indivíduos não foi possível realizar a aferição da PA. Foi observada associação estatisticamente significativa entre a prevalência de HAS diagnosticada e as variáveis sexo, grupo etário e anos de estudo (p<0,05).

Tabela 1.

Distribuição dos idosos com HAS diagnosticada e fatores associados. Campina Grande, Paraíba, Brasil

Variáveis  Prevalência de HAS
% (n) 
OR  IC 95% 
Total  803  75,6 (607)     
Sexo*
Feminino  555  78,0 (433)  1,0  ‐ 
Masculino  248  70,2 (174)  0,662  0,472‐0,929 
Etnia
Branca  273  72,2 (197)  1,0  ‐ 
Não branca  530  77,4 (410)  1,318  0,944‐1,840 
Grupo etário*
60‐69 anos  351  70,4 (247)  1,0  ‐ 
70‐79 anos  273  81,0 (221)  1,789  1,224‐2,614 
80 anos ou mais  179  77,7 (139)  1,463  0,961‐2,226 
Situação conjugal
Casado  418  74,4 (311)  1,0  ‐ 
Não casado  385  76,9 (296)  1,442  0,828‐1,580 
Anos de estudo*
8 anos ou mais  121  66,1 (80)  1,0  ‐ 
Menos de 8 anos  682  77,3 (527)  1,742  1,148‐2,643 
Residentes no domicílio
51  76,5 (39)  1,0  ‐ 
201  80,7 (162)  1,278  0,612‐2,666 
3‐5  429  74,4 (319)  0,892  0,451‐1,765 
6 ou mais  122  71,3 (87)  0,764  0,358‐1,629 

HAS: hipertensão arterial sistêmica; * p<0,05.

HBP: high blood pressure; *p<0,05.

Verificou‐se durante análise univariada que os homens apresentaram risco 33,8% menor de serem diagnosticados com HAS, quando comparados às mulheres. Com relação ao grupo etário, percebe‐se que idosos de 70‐79 anos apresentaram risco 78,9% maior de diagnóstico de HAS que idosos mais novos (60‐69 anos). Sobre a associação dos anos de estudo com a HAS, observa‐se que idosos com menos de 8 anos de estudo apresentaram risco 74,2% maior de terem o diagnóstico de HAS que idosos com 8 ou mais anos de escolaridade.

Na tabela 2 são apresentados os valores da análise univariada correspondente à prevalência de HAS referida e fatores associados, assim como os valores dos odds ratio não ajustados. Para essa informação foram recolhidos os dados de 797 idosos, tendo em vista que 9 indivíduos não souberam informar sobre a existência de diagnóstico prévio de HAS. A prevalência de idosos que apresentavam conhecimento sobre o diagnóstico de HAS foi de 59,8% (IC95%=56,3‐63,1), tendo sido observada associação estatisticamente significativa entre HAS referida e sexo (p<0,001) e etnia (p<0,05).

Tabela 2.

Distribuição dos idosos com HAS referida e fatores associados. Campina Grande, Paraíba, Brasil

Variáveis  Prevalência de HAS referida
% (n) 
OR  IC 95% 
Total  797  59,8 (476)     
Sexo*
Feminino  552  64,1 (353)  1,0  ‐ 
Masculino  245  50,2 (123)  0,563  0,415‐0,764 
Etnia**
Branca  270  54,8 (147)  1,0  ‐ 
Não branca  527  62,4 (329)  1,369  1,017‐1,844 
Grupo etário
60‐69 anos  349  57,0 (199)  1,0  ‐ 
70‐79 anos  272  64,7 (175)  1,381  0,996‐1,915 
80 anos ou mais  176  58,0 (102)  1,038  0,720‐1,499 
Situação conjugal
Casado  414  59,7 (246)  1,0  ‐ 
Não casado  383  60,1 (230)  1,016  0,765‐1,349 
Anos de estudo
8 anos ou mais  121  53,7 (65)  1,0  ‐ 
Menos de 8 anos  676  60,1 (406)  1,344  0,910‐1,984 
Residentes no domicílio
51  58,8 (30)  1,0  ‐ 
200  60,5 (121)  1,072  0,573‐2,004 
3‐5  427  60,0 (256)  1,047  0,580‐1,891 
6 ou mais  119  58,8 (69)  1,000  0,513‐1,947 

HAS: hipertensão arterial sistêmica; * p<0,001; ** p<0,05.

HBP: high blood pressure; * p<0,001; ** p<0,05.

Analisando os odds ratio relacionados ao conhecimento da HAS, percebe‐se que idosos do sexo masculino apresentaram risco 43,7% menor de referirem HAS, quando comparados às mulheres, e idosos não brancos apresentaram risco 36,9% maior de referirem HAS, quando comparados aos idosos brancos (tabela 2).

Na tabela 3 são apresentados os valores da análise univariada correspondente à prevalência de idosos com HAS controlada e fatores associados, assim como os valores dos odds ratio não ajustados. Nessa tabela é possível observar que o controle da HAS foi encontrado em 44,0% (IC95%=39,4‐48,3) dos idosos, sendo observada associação estatisticamente significativa entre HAS controlada e etnia e anos de estudo (p<0,05).

Tabela 3.

Distribuição dos idosos com HAS controlada e fatores associados. Campina Grande, Paraíba, Brasil

Variáveis  Prevalência de HAS controlada
% (n) 
OR  IC 95% 
Total  468  44,0 (205)     
Sexo
Feminino  344  42,4 (145)  1,0  ‐ 
Masculino  124  48,4 (60)  1,271  0,842‐1,919 
Etnia*
Branca  154  51,3 (79)  1,0  ‐ 
Não branca  314  40,4 (126)  0,644  0,437‐0,950 
Grupo etário
60‐69 anos  184  40,8 (75)  1,0  ‐ 
70‐79 anos  176  47,7 (84)  1,326  0,874‐2,013 
80 anos ou mais  108  43,5 (46)  1,119  0,692‐1,811 
Situação conjugal
Casado  243  48,1 (116)  1,0  ‐ 
Não casado  225  39,6 (89)  0,704  0,488‐1,017 
Anos de estudo*
8 anos ou mais  60  56,7 (33)  1,0  ‐ 
Menos de 8 anos  408  42,2 (172)  0,557  0,322‐0,963 
Residentes no domicílio
28  35,7 (10)  1,0  ‐ 
121  47,9 (58)  1,657  0,707‐3,882 
3‐5  225  46,3 (118)  1,550  0,688‐3,489 
6 ou mais  64  31,2 (19)  0,818  0,320‐2,087 

HAS: hipertensão arterial sistêmica; * p<0,05.

HBP: high blood pressure; * p<0,05.

É possível observar que os idosos de etnia não branca apresentaram risco 35,6% menor de possuírem HAS controlada, quando comparados aos idosos de etnia branca, e que idosos com menos de 8 anos de estudo apresentavam risco 44,3% menor de possuírem HAS controlada, quando comparados aos idosos com 8 anos ou mais de estudo (tabela 3).

A análise multivariada e seus respetivos modelos finais da regressão logística para a HAS diagnosticada, referida e controlada encontram‐se apresentados na tabela 4. Observa‐se que, após serem testados os modelos, as variáveis que permaneceram associadas à HAS diagnosticada foram sexo e grupo etário; à HAS referida foram sexo, etnia e grupo etário; e à HAS controlada permaneceu a variável etnia.

Tabela 4.

Modelo de regressão logística multivariada. Variáveis associadas com HAS diagnosticada, referida e controlada. Campina Grande, Paraíba, Brasil

Variáveis  OR  IC 95% 
HAS diagnosticada
Sexo       
Feminino  1,0  ‐  ‐ 
Masculino  0,62  0,44‐0,88  0,007 
Grupo etário
60‐69 anos  1,0  ‐  ‐ 
70‐79 anos  1,78  1,21‐2,62  0,003 
80 anos ou mais  1,49  0,97‐2,30  0,069 
HAS referida
Sexo
Feminino  1,0  ‐  ‐ 
Masculino  0,49  0,35‐0,68  <0,001 
Etnia
Branca  1,0  ‐  ‐ 
Não branca  1,43  1,05‐1,94  0,021 
Grupo etário
60‐69 anos  1,0  ‐  ‐ 
70‐79 anos  1,48  1,06‐2,07  0,021 
80 anos ou mais  1,22  0,83‐1,79  0,308 
HAS controlada
Etnia
Branca  1,0  ‐  ‐ 
Não branca  0,66  0,45‐0,99  0,043 

HAS: hipertensão arterial sistêmica; HBP: high blood pressure.

Nesta tabela, é possível observar ainda que, para a HAS diagnosticada, os homens apresentaram risco 38,0% menor de serem diagnosticados com a doença, quando comparados às mulheres, e quanto ao grupo etário se observa que idosos com 70‐79 anos apresentaram risco 78,0% maior de serem diagnosticados com HAS, quando comparados aos idosos mais novos. Em relação à HAS referida, observa‐se que os homens apresentaram risco 51,0% menor de referir HAS quando comparados às mulheres, os idosos de etnia não branca apresentaram risco 43,0% maior quando comparados aos de etnia branca e aqueles com 70‐79 anos apresentaram risco 48,0% maior, quando comparados aos idosos mais novos. Quanto à HAS controlada, percebe‐se que idosos de etnia não branca apresentaram risco 34,0% menor de estarem com a doença controlada, quando comparados aos de etnia branca.

Discussão

Nesta pesquisa, foi verificada elevada prevalência de HAS diagnosticada (75,6% idosos de 60 anos ou mais), resultado semelhante ao encontrado tanto em estudos nacionais11,20,21 como internacionais13–15. Essa elevada prevalência de HAS é preocupante, em virtude das possíveis consequências cardíacas, cerebrovasculares e renais advindas da não manutenção dos níveis pressóricos dentro da normalidade.

Entre os fatores associados à HAS diagnosticada nos idosos deste estudo, observou‐se maior prevalência da doença entre as mulheres, resultado que corrobora com outros estudos realizados com idosos11,15,22,23. Estudo realizado em Salvador observou que a prevalência de HAS nos idosos foi maior entre as mulheres (72,81%) quando comparadas aos homens (64,58%)11. No presente estudo verificou‐se, ainda, que as mulheres apresentaram risco maior de serem diagnosticadas com HAS.

A perda de proteção hormonal em decorrência do climatério, que predispõe ao aumento de peso e ao maior risco às doenças cardiovasculares em função da defasagem de estrógenos24, poderia explicar a maior prevalência de HAS entre as mulheres. Informação relevante para a implementação de medidas terapêuticas específicas para esse grupo, principalmente durante o início do climatério.

Os achados desta pesquisa também identificaram que o diagnóstico de HAS se torna mais prevalente com o avançar da idade. Estudos realizados no Brasil8–10, assim como internacionais12,14,15, identificaram a existência de relação linear e direta entre a prevalência de HAS e a idade dos indivíduos. Estudo realizado nos Estados Unidos, entre os anos 1999‐2004, observou prevalência de HAS de 62,25% entre indivíduos com 60‐69 anos e de 73,08% entre aqueles com idade a partir de 70 anos15.

A relação direta entre a prevalência de HAS e aumento da idade dos indivíduos é preocupante, em virtude da mudança progressiva do perfil demográfico do país e das possíveis repercussões sobre as políticas de saúde. Sendo assim, essa informação deve funcionar como alerta aos profissionais envolvidos com o cuidado em saúde, para que medidas terapêuticas precoces minimizem os efeitos da HAS no organismo.

Esta pesquisa observou, ainda, a existência de associação entre HAS diagnosticada e anos de estudos. Esse resultado corrobora com achados de outros estudos12,25–28, como o realizado em São José do Rio Preto/SP, que verificou tendência linear significativa entre escolaridade e HAS, onde cada diminuição nos anos de estudo refletia em aumento da prevalência da doença em todos os grupos etários26.

Essa associação entre HAS e baixa escolaridade pode estar relacionada a um menor conhecimento ou compreensão das medidas de prevenção e controle das doenças crônicas por estes indivíduos25, o que reflete a importante influência das diferenças socioeconômicas nas condições de saúde da população e deve ser considerada frente ao planejamento de ações para o combate e controle da doença.

Com relação à HAS referida, observou‐se neste estudo elevada prevalência de idosos que referiram diagnóstico prévio da doença. Pesquisa nacional realizada nas capitais brasileiras29, assim como estudos locais realizados no país21,28,30,31 e internacionais13,14, têm verificado elevadas prevalências de HAS referida em idosos. Dados da pesquisa nacional realizada pelo Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para as Doenças Crônicas, por meio de inquérito telefônico/VIGITEL, verificaram que a prevalência de HAS referida foi de 52,80% para os indivíduos entre 55‐64 anos e 60,20% para aqueles com 65 anos ou mais29.

O conhecimento do diagnóstico de HAS se torna um fator positivo quando essa apropriação do saber se reflete em benefícios para os cuidados com a saúde e o controle da doença, além de revelar a atuação dos serviços de saúde diante do problema enfrentado pela população acometida pela HAS.

Entre os fatores associados à HAS referida, foi observada neste estudo maior prevalência da doença entre as mulheres. Resultado semelhante foi encontrado em estudo realizado em Campinas/SP, que verificou maior prevalência de HAS referida entre as mulheres (55,9%), quando comparadas aos homens (46,4%)30.

Essa maior prevalência de HAS referida entre as mulheres pode estar relacionada a uma maior procura pelos serviços de saúde, assim como a uma maior percepção do seu estado de saúde e uma maior tendência para o autocuidado quando comparadas aos homens30. Dessa forma, observa‐se que as ações e serviços de saúde precisam investir mais na atenção à saúde do homem, porque as menores prevalências de relato de HAS entre esses indivíduos podem ser reflexo de uma doença não diagnosticada.

Além da associação com o sexo, foi observado nesta pesquisa que a HAS referida apresentou associação com a variável etnia, onde idosos não brancos foram identificados com prevalência de HAS referida maior que os brancos. Essa maior prevalência de HAS referida em indivíduos de etnia não branca foi encontrada em outros estudos30–32. Estudo realizado por Oliveira et al.31, com mulheres idosas residentes no município de São Paulo/SP, constatou prevalência de HAS referida de 61,2% entre as idosas não brancas, quando comparadas às idosas brancas (54,4%).

Esta pesquisa observou ainda que idosos de etnia não branca apresentaram maior risco de referir a presença de HAS, quando comparados aos idosos brancos. No entanto, o impacto da etnia sobre a prevalência de HAS na população brasileira ainda se encontra em discussão, tendo em vista a sua miscigenação22. Sabe‐se que, além dos aspectos genéticos e biológicos, situações históricas e sociais se encontram envolvidas na determinação social das doenças33 e, por isso, devem ser consideradas durante o enfrentamento da HAS, em virtude de ocasionar maior vulnerabilidade ao adoecimento.

Sobre o controle da HAS, observou‐se, neste estudo, que ainda é baixa a prevalência de controle da doença. Estudos que buscaram verificar as taxas de controle da HAS, tanto no Brasil18,21,27 como internacionais12,13,23, também identificaram baixos níveis de controle. Pesquisa realizada em Tubarão/SC21 verificou que, dos hipertensos tratados, apenas 10,1% estavam controlados. Valores semelhantes foram encontrados em pesquisa realizada por Gus et al.27, que verificou bom controle da doença em apenas 10,4% dos indivíduos tratados. Fato preocupante, tendo em vista que o tratamento anti‐hipertensivo reduz o risco de acidente vascular cerebral, doenças cardiovasculares, insuficiência cardíaca e óbito5.

É importante destacar que a prevalência de controle da HAS neste estudo foi maior quando comparada a outras pesquisas nacionais. Isso pode estar relacionado ao fato de que a prevenção, tratamento e controle da HAS configura‐se como ação prioritária do sistema único de saúde que garante aos portadores da doença o acesso a ensinamentos contínuos sobre a HAS, o atendimento multiprofissional que possibilite a diminuição de complicações e o recebimento dos medicamentos prescritos para o tratamento.

Quanto aos fatores associados ao controle da HAS, observou‐se neste estudo associação com a etnia, onde idosos brancos apresentaram maior prevalência de controle da doença, quando comparados aos não brancos. Esse resultado corrobora com os achados de pesquisa realizada com dados de estudo populacional multiétnico sobre aterosclerose nos Estados Unidos, que verificou menor controle da HAS dos indivíduos de etnia não branca em relação aos brancos34.

A relação existente entre controle da HAS e etnia, de acordo com dados do Centers for Disease Control and Prevention35, possui ligação com a presença de diversas características, entre elas as referentes às condições socioeconômicas, o estilo de vida, o ambiente social e o acesso a serviços de saúde. Sabe‐se que, devido às desigualdades sociais existentes no país, é possível que os indivíduos não brancos desta pesquisa tenham dificuldades de acesso aos serviços de saúde e tratamento contínuo para um controle efetivo da HAS.

Outra variável que se mostrou associada com a HAS controlada foi o número de anos de estudo dos idosos. Foi verificado, nesta pesquisa, que idosos com 8 ou mais anos de estudo apresentaram maior prevalência de HAS controlada, quando comparados aos idosos com menos de 8 anos de estudo. Pesquisa realizada por Jaddou et al.12 também verificou maior prevalência de controle da HAS (52,0%) em indivíduos com mais anos de escolaridade, quando comparados aos de menor escolaridade.

Essa associação entre controle da HAS e menor escolaridade pode refletir a dificuldade para o conhecimento da doença e seus fatores de risco, assim como para a adoção de medidas terapêuticas que visem o controle da doença. Torna‐se importante reconhecer as dificuldades relacionadas à adesão ao tratamento e às medidas para o controle da doença durante o planejamento em saúde, para que assim ações para o controle da HAS sejam mais efetivas.

Em virtude do corte transversal deste estudo, não se pode realizar inferência causal entre as associações das variáveis. Outra limitação também verificada está relacionada ao viés de sobrevivência comum em estudos com idosos, que impede que os idosos do sexo masculino tenham as mesmas chances de serem selecionados para o estudo. Contudo, apesar dessas limitações, a metodologia utilizada neste estudo foi suficiente para responder os objetivos e as associações encontradas apresentam‐se compatíveis com outros estudos realizados.

Conclusão

Foi observada elevada prevalência de HAS entre os idosos deste estudo, condição que se apresentou associada ao sexo feminino e grupo etário (70‐79 anos) do indivíduo. Foi verificada, ainda, elevada prevalência de HAS referida, variável que se apresentou associada ao sexo feminino e à etnia não branca.

É importante destacar a baixa prevalência de HAS controlada entre os idosos sob tratamento deste estudo, condição que esteve associada à etnia (branca) do indivíduo e anos de estudo (8 anos ou mais), o que representa um importante problema de saúde pública em virtude de suas possíveis consequências cardiovasculares, cerebrovasculares e renais.

Colaboradores

Tarciana Nobre de Menezes: participou do delineamento, coordenação e orientação do estudo, análise, interpretação e discussão dos dados e da revisão final do artigo. Elaine Cristina Tôrres Oliveira: participou da interpretação e discussão dos dados e da redação do artigo. Milena Abreu Tavares Sousa Fisher: contribuiu na interpretação e discussão dos dados e na revisão do artigo. Gustavo Henrique Esteves: contribuiu na interpretação e discussão dos dados e na revisão do artigo.

Financiamento

Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (FAPESQ)/Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)/ Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) ‐ Edital 002/2005.

Conflito de interesses

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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