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Vol. 12. Issue 2.
Pages 65-166 (June 2016)
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Vol. 12. Issue 2.
Pages 65-166 (June 2016)
Caso clínico
DOI: 10.1016/j.ancv.2016.01.006
Open Access
Síndrome de roubo coronário‐subclávio
Coronary‐subclavian steal syndrome
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Inês Monteiro Alvesa, Sandrina Maria Pereira Figueiredo Bragab,c,
Corresponding author
sandrinafigueiredo@portugal.com

Autor para correspondência.
, João António Ferreira Correia Simõesb, Celso José Cancelo Carrilhob, Amílcar Varregoso Silva Costa Mesquitab
a Escola de Ciências da Saúde, Universidade do Minho, Braga, Portugal
b Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular, Hospital da Senhora da Oliveira, Guimarães, Portugal
c Departamento de Anatomia, Faculdade de Medicina, Universidade do Porto, Porto, Portugal
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Resumo

A síndrome de roubo coronário‐subclávio é uma entidade clínica que consiste na inversão de fluxo na artéria mamária interna em doentes previamente submetidos a revascularização coronária com esta artéria como conduto, devido a estenose marcada ou oclusão proximal da artéria subclávia. Considerada uma síndrome rara, a sua existência torna‐se cada vez mais significativa com o uso continuado da artéria mamária interna na revascularização coronária, causando isquemia cardíaca e, mais raramente, enfarte agudo do miocárdio. Os autores descrevem o caso de um doente que realizou revascularização coronária com artéria mamária interna e se apresentou com dor torácica recorrente, tendo‐lhe sido diagnosticada síndrome de roubo coronário‐subclávio. A estenose subclávia foi corrigida com angioplastia e stenting da artéria, verificando‐se completa remissão dos sintomas.

Palavras‐chave:
Síndrome de roubo coronário‐subclávio
Bypass coronário
Artéria mamária interna
Estenose subclávia
Abstract

Coronary‐subclavian steal syndrome is a clinical entity that consists in the ocurrence of reverse blood flow in the internal mamary artery in patients who underwent coronary revascularization using this artery as conduit, due to severe proximal stenosis or occlusion of the subclavian artery. Considered to be a rare syndrome, it's existence is becoming more significant thanks to the common use of the internal mamary artery in coronary revascularization, causing cardiac ischemia and, more rarely, acute myocardial infarction. We reporte the case of a pacient who underwent coronary revascularization with the internal mamary artery, presented with recurrent thoracic pain, who was diagnosed with coronary‐subclavian steal syndrome. The subclavian stenosis was treated with angioplasty and stenting, with complete remission of symptoms.

Keywords:
Coronary‐subclavian steal syndrome
Coronary bypass
Internal mammary artery
Subclavian stenosis
Full Text
Introdução

A síndrome de roubo coronário‐subclávio (SRCS) foi descrita pela primeira vez em 1974, por Harjola e Valle1. Em doentes submetidos a cirurgia de bypass coronário com uso da artéria mamária interna (AMI) como conduto, a presença de estenose da artéria subclávia (EAS) proximal à origem da AMI causa diminuição do fluxo sanguíneo para o membro superior, originando assim inversão do fluxo na AMI, com concomitante «roubo» hemodinâmico da circulação coronária para o membro superior2–5. A síndrome é uma causa rara de isquemia cardíaca, que ocorre em cerca de 1‐4% dos doentes submetidos a revascularização coronária com uso da AMI6, que causa angina recorrente e, mais raramente, claudicação do membro superior e insuficiência cardíaca7. Em casos de estenose crítica ou oclusão, pode levar a enfarte agudo do miocárdio, sendo assim potencialmente fatal8. A artéria subclávia esquerda é o ramo do arco aórtico mais afetado por aterosclerose, o que explica que a maioria dos casos reportados de SRCS ocorram do lado esquerdo9. A principal etiologia responsável pela EAS é a aterosclerose, existindo, no entanto, outras causas possíveis, como arterite de Takayasu, arterite rádica, arterite de células gigantes (ou arterite temporal) e anomalias congénitas da aorta3,4,7,10 (figs. 1–3).

Figura 1.

Angiografia: pré‐dilatação com balão da estenose da artéria subclávia esquerda.

(0.1MB).
Figura 2.

Angiografia: colocação de stent expansível por balão na artéria subclávia esquerda.

(0.1MB).
Figura 3.

Angiografia: controlo final, após correção de estenose – artéria subclávia esquerda permeável sem estenose residual.

(0.11MB).

A SRCS deve ser suspeitada em doentes que, após revascularização coronária com AMI, apresentem sintomas de angina9,10. A maioria das EAS são assintomáticas, pelo que a patologia pode estar presente muito antes dos sintomas se manifestarem2,11. Os doentes referenciados para bypass coronário, cujo conduto utilizado se preveja ser AMI, devem ser previamente avaliados a fim de excluir EAS7. Na presença de roubo coronário‐subclávio tem de existir, necessariamente, EAS e um bypass AMI patente e permeável, com evidências de fluxo retrógrado12. Ao exame físico, a diminuição da pressão arterial do membro superior ipsilateral à estenose, com uma diferença ≥20mmHg entre as pressões arteriais nos 2 membros superiores, e a existência de um sopro na fossa supraclavicular são sugestivos de SRCS2,11. Para confirmar a suspeita, é necessário utilizar outros métodos de diagnóstico imagiológico, tais como o eco‐Doppler, angio‐TC, angio‐RMN e arteriografia7. Embora o eco‐Doppler deva ser utilizado como ferramenta de diagnóstico de primeira linha, por ser um método não invasivo, o exame mais adequado e com melhores resultados continua a ser a arteriografia12.

Em doentes que se apresentam com EAS e nos quais esta se encontra proximal à origem da artéria vertebral, é ainda possível a existência simultânea de síndrome de roubo subclávio‐vertebral, que se caracteriza pela existência de fluxo invertido na artéria vertebral, de forma a colmatar a diminuição de fluxo sanguíneo para o membro superior, desviando assim fluxo da circulação cerebral posterior12. Os sintomas mais frequentes são cefaleias, tonturas, vertigens, ataxia e síncope12, devendo‐se suspeitar da existência de inversão do fluxo em ambas as artérias vertebral e AMI quando estes sintomas se apresentam conjuntamente com sintomas cardíacos2. A correção da EAS é um tratamento eficaz para ambas as síndromes2. A SRCS é uma variante desta patologia9.

Caso clínico

Os autores descrevem o caso clínico de um doente de sexo masculino, de 69 anos. Ex‐fumador, com antecedentes pessoais de hipertensão arterial, dislipidemia e obesidade. Em 2002, foi submetido a revascularização coronária após enfarte agudo do miocárdio, utilizando a AMI esquerda como conduto de bypass para a artéria descendente anterior e a veia grande safena para a artéria oblíqua marginal.

Em abril de 2012, apresentou quadro de dor torácica retrosternal com irradiação dorsal, que aliviava com repouso. Foi internado na unidade coronária de cuidados intensivos com o diagnóstico de síndrome coronária aguda, apresentando recorrência da dor no internamento. O estudo analítico revelou subida dos marcadores de necrose miocárdica, sem supradesnivelamento do segmento ST no eletrocardiograma. Ao exame físico, apresentava ausência de pulsos subclávio, umeral, radial e cubital no membro superior esquerdo e discrepância significativa de pressões arteriais entre os membros superiores: à direita 138/76mmHg e à esquerda 97/61mmHg. Não apresentava sopros supraclaviculares ou carotídeos e os pulsos arteriais no membro superior direito eram normais. Foi realizado cateterismo cardíaco, que mostrou permeabilidade de ambos os bypasses, sem lesões, ausência de lesões de novo nas artérias coronárias e estenose pré‐oclusiva calcificada na origem da artéria subclávia esquerda, diagnosticando‐se assim SRCS. Perante o diagnóstico, foi proposta a realização de correção endovascular da EAS esquerda. Por punção umeral esquerda foi efetuada pré‐dilatação da estenose e colocação de stent expansível por balão (9×39mm). O procedimento decorreu sem intercorrências e, no pós‐operatório, verificou‐se completa remissão dos sintomas e ausência de diferença tensional entre os 2 membros superiores – à direita 130/70mmHg e à esquerda 128/66mmHg, com recuperação de pulsos arteriais no membro superior esquerdo. O doente permaneceu sob dupla antiagregação durante 6 meses. Após 3 anos de follow‐up, o doente mantém‐se clinicamente assintomático, com pulsos arteriais presentes e normais no membro superior esquerdo, sem diferença tensional significativa entre os membros superiores e com eco‐Doppler sem alterações sugestivas de restenose subclávia.

Discussão

A presença de EAS em doentes com bypass coronário utilizando a AMI ipsilateral tem indicação para correção, mesmo que assintomática2,11. Estabelecer um diagnóstico correto, através da medição da pressão arterial simultânea em ambos os membros superiores, realização de eco‐Doppler ou arteriografia, é importante em doentes referenciados para revascularização miocárdica ou que já foram revascularizados, a fim de excluir estenose subclávia e prevenir o desenvolvimento de SRCS7. O tratamento de SRCS centra‐se na correção da EAS6. Anteriormente, o tratamento preconizado era cirúrgico e consistia na reinserção da AMI na aorta, para garantir a permeabilidade do bypass coronário e tratamento da estenose subclávia, através de bypass carotídeo‐subclávio, bypass aorto‐subclávio ou transposição subclávio‐carotídea3,7,12. Embora com taxas de sucesso elevadas e bons resultados a longo prazo, a cirurgia era laboriosa e sujeita a complicações13. A revascularização endovascular da artéria subclávia tem apresentando ao longo das últimas décadas taxas de sucesso técnico (97%) e de permeabilidade (taxa de permeabilidade, aos 5 anos, de 89‐95%) excelentes14,15, comparáveis com as da revascularização cirúrgica, tendo a vantagem de ser uma técnica minimamente invasiva, com taxas de morbimortalidade (4,5%) inferiores às da cirurgia14 e de se associar a internamento mais curto, bem como recuperação mais rápida4. A técnica mais defendida é a pré‐dilatação com balão, para garantir maior precisão de posicionamento do stent14.

A ocorrência de restenose após procedimento endovascular é relativamente reduzida, sendo de cerca de 16% aos 5 anos, e pode ser tratada com repetição do procedimento10. Deste modo, a revascularização endovascular é agora utilizada como técnica de primeira linha para tratamento de SRCS4,10,15. Ainda assim, é importante ter em conta que existem algumas possíveis complicações desta técnica, como ocorrência de acidentes vasculares cerebrais, embolização periférica da placa aterosclerótica e obstrução da AMI, por colocação incorreta do stent ou migração deste14. A revascularização cirúrgica continua a ser uma técnica importante, utilizada na impossibilidade de transpor a lesão durante a angioplastia, em lesões oclusivas calcificadas, em lesões obstrutivas longas e em certos casos de restenose4,6,14.

Com o uso da AMI a estabelecer‐se como conduto gold‐standard para bypass coronário, devido às percentagens elevadas de sucesso e permeabilidade e baixas taxas de morbilidade3,9, estima‐se que sejam reportados cada vez mais casos de SRCS. A ocorrência desta síndrome deve‐se ao não reconhecimento da progressão de doença aterosclerótica após a cirurgia de revascularização, ou ao não reconhecimento de EAS pré‐existente em doentes referenciados para bypass coronário10. De facto, o desenvolvimento de SRCS, menos de um ano após revascularização cardíaca, é sugestivo da existência de estenose subclávia não diagnosticada previamente à cirurgia5,9,10. Assim, ressalta‐se a importância não só de considerar a ocorrência de SRCS nestes doentes, como de realizar estudo pré‐operatório em doentes referenciados para bypass coronário com AMI, nomeadamente com medição de pressão arterial bilateralmente nos membros superiores, realização de eco‐Doppler da artéria subclávia e de arteriografia dos troncos supra‐aórticos simultaneamente à realização de cateterismo cardíaco pré‐operatório, de modo a prevenir a ocorrência da síndrome10. Os estudos apontam para uma prevalência de estenose subclávia significativa de 0,2‐6,8% dos doentes propostos para cirurgia cardíaca de revascularização, o que leva a que algumas instituições comecem a instituir protocolos de diagnóstico pré‐operatório de EAS15. Quando a EAS é identificada, deve ponderar‐se a realização de revascularização miocárdica com outro conduto que não a AMI ipsilateral, nomeadamente a AMI contralateral, um conduto venoso (por exemplo, utilizando a veia grande safena) ou conduto protésico7,15. Embora a substituição da AMI por outro conduto elimine as hipóteses de desenvolvimento de SRCS, também nega ao doente os benefícios comprovados do uso da AMI na cirurgia de bypass coronário7. Assim, a realização de angioplastia e stenting da artéria subclávia previamente à realização de revascularização miocárdica, de modo a corrigir a estenose, tem sido proposta como primeira opção terapêutica, permitindo a prevenção de SRCS15. Em casos de impossibilidade de revascularização endovascular, a substituição da AMI como conduto deve ser considerada15.

Conclusão

Devido à sua crescente frequência, a SRCS deve ser sempre suspeitada em doentes que realizaram cirurgia de bypass coronário com AMI e apresentem recorrência de angor7. O diagnóstico deve ser confirmado imagiologicamente e a arteriografia permanece como padrão12. De modo a prevenir a ocorrência desta síndrome, é fundamental excluir pré‐operatoriamente a existência de EAS e a medição sistemática da tensão arterial em ambos os membros superiores no pós‐operatório10. Pelo risco de enfarte agudo do miocárdio, a SRCS deve ser corrigida mesmo que assintomática2,9,11. Atualmente, a angioplastia e stenting da artéria subclávia é o tratamento de primeira linha para SRCS, devido às altas taxas de sucesso e permeabilidade a longo prazo, com baixas taxas de morbimortalidade4,14,15.

O follow‐up destes doentes é essencial, de modo a detetar restenose e consequências potencialmente catastróficas, nomeadamente pela avaliação clínica e realização anual de eco‐Doppler da artéria subclávia7. Nestes doentes é ainda importante implementar mudanças de estilo de vida, nomeadamente no que concerne aos fatores de risco cardiovasculares (diabetes mellitus, hipercolesterolemia, hipertensão, tabagismo, sedentarismo e obesidade), para prevenir a progressão da doença aterosclerótica7.

Responsabilidades éticasProteção de pessoas e animais

Os autores declaram que para esta investigação não se realizaram experiências em seres humanos e/ou animais.

Confidencialidade dos dados

Os autores declaram que não aparecem dados de pacientes neste artigo.

Direito à privacidade e consentimento escrito

Os autores declaram que não aparecem dados de pacientes neste artigo.

Conflito de interesses

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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